sábado, setembro 04, 2010









RETRATOS GALLEGOS

Luís Dantas











Em Retratos Gallegos a tenaz sagacidade da comunidade galega, principalmente em Portugal, é abordada de forma inovadora e criteriosa, bem ao jeito criativo do fazer história deste escritor investigador.

José de Sousa Vieira
in Da Minha Sebenta

Limianismo, corrente cultural e afectiva sobre Ponte de Lima e o Vale do Lima

O autor limiano Luís Dantas acaba de lançar mais um livro, desta feita intitulado «Retratos Gallegos».
Na publicação de 140 páginas, Luís Dantas fala da terra e o povo no século XIX, a emigração interpeninsular, a emigração transatlântica, os galegos entre Douro e Minho, os aguadeiros em Lisboa, os amoladores e moços de fretes, gente de negócios em Lisboa, Santo Amaro dos Galegos e os galegos no Teatro D. Maria II.
Luís Dantas tem publicados onze livros, entre poesia e prosa.

Jornal Alto Minho, 2 de Setembro de 2010

domingo, junho 06, 2010


SOCIABILIDADE RELIGIOSA EM VIANA DO CASTELO NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

POR JOSÉ CARLOS DE MAGALHÃES LOUREIRO


O meu respeito pelos textos de José Carlos de Magalhães Loureiro permanece desde o seu artigo As Feiras Novas no Princípio do Século publicado no Anunciador (1994). Vi logo que estava ali um jovem historiador animado pelo seu ofício, com uma grande capacidade de dar vida aos documentos. Uma das suas mais recentes obras, Sociabilidade Religiosa em Viana do Castelo na segunda metade do século XIX, começa por uma abordagem consistente da vida dos homens e das confrarias das Almas, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Piedade, Santa Luzia e Senhor Jesus dos Mareantes. Diante da escassa informação das fontes, abriu outros caminhos para traçar o perfil socioprofissional dos confrades. E, como resultado, lá estão os resquícios das primeiras corporações medievais dos trabalhadores do mar e dos ofícios na realização das festas e das cerimónias religiosas, no espírito puro da caridade, como as ajudas à hospitalização, funerais e meios de sobrevivência das viúvas. São os comerciantes, os artífices, os pescadores e os marítimos que aparecem em lugar de destaque, e depois as elites urbanas, que estão ligadas à confraria de Santa Luzia, «de criação tardia». José Carlos de Magalhães Loureiro mostra-nos como os confrades procuram manter os costumes, os códigos de ética, a socialização dos comportamentos, a devoção ao santo, a piedade. Os estatutos que regiam a confraria (do Senhor dos Mareantes) até 1884 previam como direito dos irmãos e familiares, no campo da assistência, a mortalha e a sepultura condigna. Estavam ainda obrigados a dar assistência e socorro aos mareantes e pescadores mortos dados à costa e aos pobres peregrinos que cruzavam a cidade.» (1)

A Confraria de Santa Luzia não recrutava apenas os homens e mulheres do lugar, mas de outras aldeias, vilas e cidades do país e do estrangeiro, como Ponte de Lima, Monção, Braga, Porto, Coimbra, Lisboa, Pará, S. Paulo e Rio de Janeiro. Estes grémios populares estavam enraizados na crença, na ajuda mútua, no calendário festivo, na vida quotidiana, e não eram alheios, por isso, à evolução política, aos receios da peste, aos maus anos agrícolas. O Historiador compara o ritmo das inscrições com os ciclos económicos para concluir: «A ligeira subida de preços nos primeiros anos da década de vinte, parece afectar levemente o número de ingressos. Por seu lado, a descida dos preços entre 1825-30 impulsiona, nas confrarias estudadas, a sua subida.» (2)

Estamos na presença de uma investigação inteligente, ponderada e criativa em torno de múltiplos documentos que, pelo modo como são lidos e transcritos, fazem reviver não só as antigas confrarias vianenses, mas também a conduta dos homens no espaço urbano e sagrado, as festas da cidade, os percursos processionais e o toque dos sinos na vida e na morte.

José Carlos de Magalhães Loureiro pertence a uma nova geração de Historiadores que escuta cada vez mais as palpitações da vida local. Aqui se faz, e aqui se tem feito, a renovação da ciência histórica. Em muitos aspectos, a História Geral depende da História Local. É o que nos diz, ao fim e ao cabo, um grande sociólogo paulista: «A História não será correctamente decifrada pelos pesquisadores se não estiver referida a esse âmbito particular que é o sujeito e o da história local, isto é, ao modo de viver a História. Por essas meditações a compreensão da História se enriquece, mas se enriquece também a consciência histórica de quem age na esperança de dar sentido ao seu destino no destino do género humano» (3)


NOTAS


(1) José Carlos de Magalhães Loureiro, Sociabilidade Religiosa em Viana do Castelo na segunda metade do século XIX, Edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Viana do Castelo, 2005, pp. 28-29

(2) José Carlos de Magalhães Loureiro, Sociabilidade Religiosa em Viana do Castelo na segunda metade do século XIX, Edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Viana do Castelo, 2005, pg.70

(3) José de Souza Martins, A Sociabilidade do Homem Simples: Cotidiano e História na modernidade anómala, Editora Contexto, São Paulo, 2.ª edição, 2008, pg. 117

segunda-feira, março 22, 2010


POEMAS DA EMIGRAÇÃO


AMÂNDIO SOUSA DANTAS


Trajecto dum emigrante poeta


Prefácio


O fenómeno social excepcional que foi a saída (e fuga) do país nos anos sessenta e inícios de 70 do século passado, que envolveu na sua maior parte a juventude, e determinou a fixação em França, na Alemanha e em outros países de centenas de milhar de portugueses, ainda que tenha dado lugar ao aparecimento de uma poesia verdadeiramente distinta e de indiscutível afirmação, não teve ainda quem a estudasse devidamente a ponto de ser devidamente reconhecida (1). Uma parte dessa juventude, a mais letrada, regressou ao país após a revolução do 25 de Abril aí desempenhando um papel destacado tanto nas letras como na esfera sociopolítica. Alguns artigos revelaram aspectos da expressão poética daí derivada e, estamos certos, que não tardará a ser melhor estudada. O lugar que ocupará na cultura portuguesa essa actividade criativa (inclusivamente no domínio mais interferente da música) está garantido por se associar ao movimento social e político que marcou o último terço desse século.

Através das duas principais revistas que nasceram entre os portugueses residentes na Europa - Peregrinação (1985-1995) e Latitudes (1997-...) tivemos oportunidade de conhecer de perto a criação poética de Amândio Sousa Dantas que, muito jovem, publicou o seu primeiro livro, Sentimento de Ausência, em Osnabrück, no norte da Alemanha, seguindo-se outros, antes de regressar à sua terra de origem, o prolífero e acolhedor Minho. Ao reunir agora poesia dos seus primeiros quatro livros, pensada e sentida no exterior, evidencia a sua fidelidade a uma juventude conturbada que talentosamente soube superar pelo risco da escrita, o modo de expressão que brota naturalmente das suas veias. A sua escrita actual, não obstante conservar a mesma elegância, denota maior hermetismo ao mesmo tempo que se abre para temáticas que conquistaram oportunidade.

Desde o início, os seus versos nos impressionam pelo seu ritmado encadear que aparenta inspirar-se dos clássicos renascentistas. Eles são alimentados pela sensação da continuidade, por um devir que torna as acções mais vivas, mais coloridas, que foi identificado àquele período excepcional de grandes mudanças civilizacionais. Foi então que os portugueses conheceram um período áureo com as Descobertas, o seu maior feito. Esta herança de Amândio Sousa Dantas permanece um mistério que só pode advir da identificação

com uma música pessoal, recôndita e obscura, um sentir inconsciente, certamente, que abriga o seu talento poético.

Havíamos identificado noutro texto, nos tons dos versos de Amândio S. Dantas uma musicalidade individualizada e no livro, Emigrar na Primavera (1991) a presença e quase instalação num mundo perdido, marcado pela desintegração da natureza, sugere-nos a dolorosa decepção do poeta de cans, Sá de Miranda; cujo amargurado retiro se verificou nas mesmas terras do verde Minho. Pelo meio das árvores transformadas, de águas e folhas iça-se uma dor psicológica, afectiva, qual fenda, inserida noutra poética mais actual mas igualmente subtil, maviosa e dolente.

Amândio, porém, percorre outros espaços. Em “Junto às estações o coração" podemos apreender um distinto arranjo formal, próximo da experiência interseccionista de Fernando Pessoa, que assimila inclusivamente um trabalho vocabular que teve em Gastão Cruz, da Poesia 61, o maior cultor. Numa simplicidade pagã - que herança terá do mestre Alberto Caeiro? - em versos curtos, aparentemente desordenados, reencontramos, em filigrana, uma assimilação de variadas leituras, que dotam a sua poesia duma tensão intrínseca e de maior densidade. Há efectivamente nesta recolha de poemas uma atmosfera angustiante, prefigurando a sensação de perda. A observação e apreciação do silêncio - com uma presença intensiva e inesperada para a mente de um jovem - dá as mãos à saudade, que se repete sem receio nem vergonha, perscrutando um sinal, uma carta, construindo uma sensação de solidão sem excessivo desespero, numa acalmia bem portuguesa, desconhecedora de excessos. Alguns, erradamente, alvitrariam a subserviência a um destino predeterminado, irremediável de configuração ancestral.

No entanto, o poeta abre outras frestas para o mundo, para a encantadora natureza e inclusivamente se mostra sensível a uma cena inabitual de comunhão de patriotismo à volta duma mesa, experimentada no seu exílio no Norte da Europa. Por aí passa a defesa e ilustração da cidade germânica de adopção, associada a génios da música e da poesia. Por esta dimensão exteriorizada, o lirismo melancólico passa a uma plataforma outra, da ordem do colectivo, provinda dessa vivência que coube à juventude portuguesa nas ditas décadas. A arte poética de Amândio, retirando pela sua curiosidade inquieta, as pulsações dos novos ambientes, engrandeceu o universo lusitano de novas paisagens e impressões num movimento apertado mas de abertura embora prematuro no tempo. O regresso ao país haveria de provocar o surgimento de um novo ciclo.

As composições aqui reunidas fruto das suas primícias poéticas, criadas num clima tão particular, comportam, como sucintamente apontámos, além dum significado estético, uma imagética distinta intimamente ligada ao espaço geográfico e ao tempo psicológico vividos, e que ficarão a assinalar um caminho irreversível que por intermédio do seu talento poético é proporcionado a todos nós e para sempre. Este acto editorial pode encarar-se ainda como um marco assinalável nas terras do Norte de Portugal, das que mais verteram gente pela Europa fora, provocado pelos egoísmos duma minoria, lançando o país e a sua juventude numa intolerável aventura humana. No seu estro poético Amândio havia de aperfeiçoar o seu modo de resistência, tal bóia de náufrago no largo atlântico.

1. O que dizemos relativamente à poesia se pode dizer em relação a outras dimensões da vida cultural e social. Ainda não chegou a hora de aquilatar desse contributo provindo dos exilados (ou novos estrangeirados).

Janeiro 2010

Daniel Lacerda

director da revista Latitudes (Paris)

segunda-feira, junho 08, 2009











AS MULHERES AVENTUREIRAS
DE
ROSÁRIO SÁ COUTINHO


As Mulheres Aventureiras de Rosário Sá Coutinho movem-se no deambular do tempo (desde o século XVI até ao século XIX) e em diferentes espaços (Lisboa, Portugal; Arzila, Agadir, Ceuta e Mazagão, em Marrocos, na África do Norte; Goa, na costa ocidental da Índia; Moçambique, na África Oriental e Aramaré, Baía, no Brasil). No contexto da conquista e da colonização portuguesa, a vida destas heroínas reaparece na história com a claridade reinventada por um processo criador em permanente alegria, tal é o modo de ler, de olhar o passado, de seguir as personagens em todos os momentos, na alegria e na tristeza, no amor e na raiva, na paz e na guerra. Lá está D. Isabel Henriques, condessa do Redondo, com outras mulheres, a defender a fortaleza: «carregava cestos cheios de pedras para o muro, para entulhar as portas por onde os mouros tentavam entrar; recolhia as setas lançadas pelo inimigo para o interior da praça, que consertava para poderem ser reutilizadas; derretia chumbo para os pelouros que os nossos arremetiam contra o infiel, cozinhava e distribuía os alimentos aos soldados que combatiam nas ameias horas a fio.» (1) Noutras ocasiões, em que tudo era feito para resgatar prisioneiros, o emissário que vai à tenda do Rei de Fez leva não só o apelo feminino, mas «duas cargas de cousas d’açuquere, e asi de conservas como de bolinhos.» (2) E, como saísse das páginas de um romance belíssimo, repleto de tensões, desfila diante dos nossos olhos, D. Mécia de Monroy, filha de capitão, cativa cristã, acorrentada diante do xerife, a inspirar uma grande paixão ao mouro… Vem depois, D. Maria de Eça, a capitanear a Praça de Ceuta, na ausência do marido, num período conturbado. De um outro mundo, não de um conto de fadas de Charles Perrault, mas da zona pobre dos pescadores da ria de Aveiro, surge uma das figuras mais fascinantes desta obra, uma mulher de grande valor e coragem esquecida pela literatura ou pintura romântica: Antónia Rodrigues. A Antónia foi enviada para «casa da irmã mais velha em Lisboa» (3), e não teve vida fácil. Como de costume, a «pequena fora arrancada da cama aos primeiros raios de sol, posta a esfregar o chão e mandada, a gritos, ir buscar água à fonte. Acarretara o pesado balde encosta acima, apenas para ouvir mais gritos quando o apresentou meio cheio. Escorregara pelo caminho, entornara um pouco e esfolara os joelhos. Mas ninguém se compadeceu. Que voltasse atrás para o encher de novo.» 4 Um dia, farta de maus tratos, «foi, pé ante pé, buscar a caixa de latão que guardava escondida debaixo de uma tábua solta do soalho» (5), fez a trouxa, cavou de casa, afastou-se para a parte baixa da cidade e «foi à rua onde vendem vestidos feitos, e desse pequeno pecúlio que tinha comprou um vestido conforme ao trajo dos moços que servem no mar em navios merchantes» - um par de calças roçadas, uma camisa e um barrete.» (6) Disfarçada de grumete, inicia a sua proeza a bordo de uma nau a caminho de Mazagão. Em lá chegando, vira soldado, cavaleiro valente.
O leitor vai descobrir ainda D. Juliana Dias da Costa a viver longos anos na Índia, na corte mongol; D. Leonor Tomásia, Marquesa de Távora, no Vice-reino em Goa; D. Francisca Chiponda, senhora abastada, poderosa, em tratos comerciais nas terras de Moçambique e a letrada D. Maria Bárbara Garcês Pinto de Madureira à frente do engenho de Aramé, na Baía, Brasil.
Rosário Sá Coutinho identificou-se com essas protagonistas e transpôs com paixão para a palavra límpida, vibrante, emotiva e apaixonada, os seus perfis, mentalidades, atitudes, falas, gemidos, vestuários, composturas do cabelo, ambientes exóticos, troadas de guerra. E As Mulheres Aventureiras, aí estão: evadiram-se dos quadros opacos de várias épocas para povoar agora as páginas da história nova com toda a força criadora de outra mulher, a Rosário, que revela aqui o seu talento como autora de uma grande obra literária ou histórica.





NOTAS
(1), Rosário Sá Coutinho, Mulheres Aventureiras, a esfera dos livros, Lisboa, 2009, pg.26
(2) Idem, idem, pg. 34
(3) Idem, idem, pg. 76
(4) Idem, idem, pg. 76
(5) Idem, idem, pg. 78
(6) Idem, idem, pg. 78

segunda-feira, dezembro 08, 2008


luisdantas1113@yahoo.com.br



O ACHAMENTO DO BRASIL


VASCO DOS SANTOS


Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006


Os versos desta obra, O Achamento do Brasil, evocam os homens, «os sonhadores dos mares, /Que se norteiam pelo cintilar dos astros» (1), os soldados, os padres, os pajens, os calafates, os degredados, «os embarcados e embarcadiços» (2) nas velhas rotas das naus ou das caravelas num tempo longo de

 

«Tantos dias, tanto mar,

Tantas alegrias pra contar,

Tantas agonias pra lastimar.» (3)

 

Vasco dos Santos inspira‑se nas velhas crónicas e, através de um processo de intertextualidade, cria outra linguagem repleta de rimas, de sonoridades, de vibrações.

 

«Com a manhã serena e calma,

Procedeu-se à contagem,

Como sempre se fazia,

Das naus e das caravelas

E de toda a marinhagem

E de tudo quanto nelas havia.

 

Perante o espantado olhar

E os escancarados olhos,

Faltara uma à chamada geral.

 

O mar era calmo, sem ondas,

Nem sargaços, nem escombros, nem escolhos,

Mas ficara menor a esquadra de Cabral.» (4)

 

Mais adiante, «ao romper da aurora» (5), já ela baloiça nas palavras com

 

«aves que «topamos»,

 Chilreando, alegres, aos bandos» (6).

 

Todos sabem, pela experiência, que a terra está próxima. E esta poética faz ouvir a brisa, a água, o alvoroço e a alegria dos mareantes que

 

«Gritavam à toa, à toa, à toa:

-Terra à vista! À vista! À vistaaaaaa!» (7)

 

            O leitor vai vivendo esta aventura, deixa‑se embalar por este roteiro, deslumbra‑se com as aguarelas que moldam este livro: «os brancos areais da praia aberta» (8), «os homens da terra» (9) com as suas carapuças, «Amarelas umas, Vermelhas outras/ E verdes eram algumas» (10), «armados de arcos e flechas e setas» (11), «os corpos nus/E todos pintados em cores diferenciadas/ E garridas» (12), as moças «graciosas e gentis, /Os cabelos compridos e pretos» (13).

Vê-se ainda as viagens ao longo da costa, «as matas densas» (14), as palmeiras, o esvoaçar de papagaios, a «ribeira grande» (15), o corte de madeiras, as aldeias, as casas, as danças, os ritos, os modos de conviver, a «cruz erguida» (16) - «o símbolo e a luz/A perpetuar-se na terra de Vera Cruz.» (17) 

 

Notas         

(1)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.9

(2)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.14

(3)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.11

(4)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pp.31-32

(5)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.45

(6)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.45

(7)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.47

(8)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.57

(9)   Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.65

(10)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.84

(11)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.60

(12)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.82

(13)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.82

(14)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.129

(15)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.144

(16)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.155

(17)           Vasco dos Santos, O Achamento do Brasil, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2006, pg.153

 

 

 

domingo, setembro 07, 2008

luisdantas1113@yahoo.com.br


CARMEN OU A MAGIA DA ARTE

NOS SONETOS DE VASCO DOS SANTOS



Esta poética de Vasco dos Santos inspira-se em Carmen, na dor e na perda da mulher amada: «Estavas tal qual eras – graciosa, /Envolta na mortalha, revestida, /Apartada de mim, no adeus à vida/E a face tão tranquila – cor de rosa. //A morte, assim brutal e insidiosa, /Sem um sequer adeus à despedida, /Partiu sem ser notada ou percebida/Pra viagem sem termo e dolorosa.» (1) Mas não é a morte a grande temática ou a mensagem do poeta: é a vivência de ambos, as experiências humanas, os momentos de contemplar a beleza - o «oceano imenso» (2), a «sombra dos pinhais» (3), as flores dos jardins, os cânticos dos pássaros - as veredas da saudade, as noites da solidão e o destino.

O procedimento artístico de Vasco dos Santos afasta-se do «lirismo com dramaticidade permanente» (4) de Augusto dos Anjos, do Poema Negro ou do soneto O Poeta Hediondo: «Eu sou aquele que ficou sozinho/cantando sobre os ossos do caminho/A poesia de tudo quanto é morto!» (5) Em Carmen, a magia da poesia, transforma a realidade mais cruel numa outra significação: abre os espaços luminosos, faz voltar os «afagos, à distância» (6), instala diálogos íntimos como este: «E sempre me dizias e falastes/ Que o teu amor é meu no meu que tinhas.» (7)

De soneto em soneto, as mágoas, as saudades, os «sonhos eternos» (8) e os múltiplos reencontros afectivos reinventam os mistérios da vida:


«Senti os passos teus pisando a grama

No pé ante-pé, igual caminhas,

Foi um sonho, eu bem sei, como o adivinhas,

Se ninguém falou nada e nem te chama?

E, contudo, eu te vi em outra cama

Onde, ao frio, repousas e te aninhas,

Lá deixei o calor – saudades minhas

Que o amor da minh’alma mais inflama!

Sei que a saudade é vida sempre ausente,

Por mais que a morte esqueça a despedida,

Naquele adeus eterno da partida

Que, um dia, infalível, se apresente

E a promessa haverá de ser cumprida

Resgatados na fé pra outra vida.» (9)

Notas

(1), Vasco dos Santos, Carmen: 47 sonetos + um, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2005, pg.17

(2) Idem, idem, pg.11

(3) Idem, idem, pg 19

(4) Carlos Drummond de Andrade, Nota critica à obra poética de Augusto dos Anjos, Manuscrito, Biblioteca Nacional, Brasil

(5)Augusto dos Anjos, O Poeta do Hediondo

(6) Vasco dos Santos, Carmen: 47 sonetos + um, Editora Nova Aldeia, São Paulo, 2005,

pg.68

(7) Idem, idem, pg.68

(8) Idem, idem, pg.15

(9) Idem, idem, pg.47


sexta-feira, agosto 15, 2008


luisdantas1113@yahoo.com.br


CEREJAS DE CELULÓIDE

por

Zilda Cardoso

 

         Nesta obra de Zilda Cardoso, Cerejas de celulóide, o processo narrativo pulsa e respira num universo de nostalgias. Os tempos - o passado, o presente e, por vezes, o futuro - cruzam-se e misturam-se na reconstituição da vida, das formas de vida e pensamentos das várias personagens.

         Ao ler as primeiras páginas, fica-se com a impressão de que a escritora trabalhou o seu texto a partir de fotografias ou de memórias. «Aquela rua», diz-nos ela, «perdeu o encanto. Não há vendedores ambulantes nem pregões, nem a sorte grande nem a língua da sogra. É lugar onde já não fervilham as paixões e em que a poesia das velhas coisas não deixou marca visível: não há ciganas a ler a sina, nem robertos nem ursos bailarinos nem ceguinhos a cantar as desgraças próprias e alheias.» E naquele prédio «nenhuma mulher gasta os cotovelos à janela, nas varandas nem uma criança.» A rua e o prédio mudaram muito, mas as imagens que nos chegam com a luz, a sombra, o ritmo e o poder evocativo da frase, são anteriores a essa mudança. Como na fotografia, «é a evidência da luz que incidiu sobra um objecto específico, num lugar específico, num momento específico. (...) Aquilo que vemos numa foto aconteceu. Às vezes de uma maneira que não sabemos como ou porquê - a fotografia não explica. Mas aqueles objectos e pessoas que se gravaram sobre o filme e hoje são imagens, ontem existiram. É isso que estimula nossa imaginação

E voltando ao livro, à arte de escrever: é isso que traz magia à literatura - a esta literatura que reacende a vida dos homens no tempo e no espaço através de quadros de uma beleza extraordinária.

         Estamos a ver, por exemplo, a Joana: «teria oito anos.»Veste «roupa de seda e delicada capelina de cor natural com um molho de cerejas no alto - as cerejas, vermelho carregado, tocam umas nas outras e fazem um ruído oco, celulóidico, que a obriga a caminhar com a cabeça direita, pescoço esticado    

Não é um encanto?

         A romancista ou a narradora - dizem-nos que o autor nunca é o narrador, mas uma das suas personagens! - não oculta a sua paixão pelas outras artes - a da pintura e a da fotografia (arte da nostalgia, como já lhe chamaram). Não é por acaso que a fotografia aparece também como objecto descrito na obra. «Foi decerto por este tempo, o Abril dos ramos e dos folares, que Maria do Carmo e Afonso tiraram uma fotografia que os filhos conservam entre as suas preciosidades. É uma minúscula e muito velha imagem de kodak, tirada na praça da Liberdade, em frente ao Banco Lisboa & Açores, no começo do Verão.

         Joana ampliou-a e está numa parede do seu quarto com uma bela moldura dourada.

         Maria do Carmo traz um vestido de crepe bastante comprido, (...) chapéu preto de palhinha fina e luvas, e uma magnífica raposa dourada sobre o ombro. (...) Afonso, (...) fato de abas arredondadas, com colete, nó grosso na gravata, chapéu de fita larga (...)

         O sol projecta as suas silhuetas no empedrado branco do passeio...»

         Vale mesmo a pena acompanhar Zilda Cardoso nesta aventura literária, neste belíssimo romance porque cada um de nós vai encontrar-se no meio de pequenos dramas do dia-a-dia, de estórias de «trânsito intenso», vai imaginar composições musicais - o som de um trombone, de um saxofone - e ver, em obras de arte, «uma mulher a estender um lençol muito branco e diversos panos de cores vibrantes», vai deslumbrar-se com o cinema a «preto e branco» ou ao ar livre, «sentado nos bancos do jardim ou nas guias dos passeios» ou então caminhar para a infância e sentir-se como aquela criança a «dançar à chuva com galochas pretas até ao joelho, salpicando nas poças e subindo e descendo o degrau do passeio, balançando o corpo ao pé-coxinho quando vai para a escola em dias de chuva.»