sexta-feira, agosto 15, 2008


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CEREJAS DE CELULÓIDE

por

Zilda Cardoso

 

         Nesta obra de Zilda Cardoso, Cerejas de celulóide, o processo narrativo pulsa e respira num universo de nostalgias. Os tempos - o passado, o presente e, por vezes, o futuro - cruzam-se e misturam-se na reconstituição da vida, das formas de vida e pensamentos das várias personagens.

         Ao ler as primeiras páginas, fica-se com a impressão de que a escritora trabalhou o seu texto a partir de fotografias ou de memórias. «Aquela rua», diz-nos ela, «perdeu o encanto. Não há vendedores ambulantes nem pregões, nem a sorte grande nem a língua da sogra. É lugar onde já não fervilham as paixões e em que a poesia das velhas coisas não deixou marca visível: não há ciganas a ler a sina, nem robertos nem ursos bailarinos nem ceguinhos a cantar as desgraças próprias e alheias.» E naquele prédio «nenhuma mulher gasta os cotovelos à janela, nas varandas nem uma criança.» A rua e o prédio mudaram muito, mas as imagens que nos chegam com a luz, a sombra, o ritmo e o poder evocativo da frase, são anteriores a essa mudança. Como na fotografia, «é a evidência da luz que incidiu sobra um objecto específico, num lugar específico, num momento específico. (...) Aquilo que vemos numa foto aconteceu. Às vezes de uma maneira que não sabemos como ou porquê - a fotografia não explica. Mas aqueles objectos e pessoas que se gravaram sobre o filme e hoje são imagens, ontem existiram. É isso que estimula nossa imaginação.»

E voltando ao livro, à arte de escrever: é isso que traz magia à literatura - a esta literatura que reacende a vida dos homens no tempo e no espaço através de quadros de uma beleza extraordinária.

         Estamos a ver, por exemplo, a Joana: «teria oito anos.»Veste «roupa de seda e delicada capelina de cor natural com um molho de cerejas no alto - as cerejas, vermelho carregado, tocam umas nas outras e fazem um ruído oco, celulóidico, que a obriga a caminhar com a cabeça direita, pescoço esticado.»    

Não é um encanto?

         A romancista ou a narradora - dizem-nos que o autor nunca é o narrador, mas uma das suas personagens! - não oculta a sua paixão pelas outras artes - a da pintura e a da fotografia (arte da nostalgia, como já lhe chamaram). Não é por acaso que a fotografia aparece também como objecto descrito na obra. «Foi decerto por este tempo, o Abril dos ramos e dos folares, que Maria do Carmo e Afonso tiraram uma fotografia que os filhos conservam entre as suas preciosidades. É uma minúscula e muito velha imagem de kodak, tirada na praça da Liberdade, em frente ao Banco Lisboa & Açores, no começo do Verão.

         Joana ampliou-a e está numa parede do seu quarto com uma bela moldura dourada.

         Maria do Carmo traz um vestido de crepe bastante comprido, (...) chapéu preto de palhinha fina e luvas, e uma magnífica raposa dourada sobre o ombro. (...) Afonso, (...) fato de abas arredondadas, com colete, nó grosso na gravata, chapéu de fita larga (...)

         O sol projecta as suas silhuetas no empedrado branco do passeio...»

         Vale mesmo a pena acompanhar Zilda Cardoso nesta aventura literária, neste belíssimo romance porque cada um de nós vai encontrar-se no meio de pequenos dramas do dia-a-dia, de estórias de «trânsito intenso», vai imaginar composições musicais - o som de um trombone, de um saxofone - e ver, em obras de arte, «uma mulher a estender um lençol muito branco e diversos panos de cores vibrantes», vai deslumbrar-se com o cinema a «preto e branco» ou ao ar livre, «sentado nos bancos do jardim ou nas guias dos passeios» ou então caminhar para a infância e sentir-se como aquela criança a «dançar à chuva com galochas pretas até ao joelho, salpicando nas poças e subindo e descendo o degrau do passeio, balançando o corpo ao pé-coxinho quando vai para a escola em dias de chuva.»

 

        

        

        

 

 

segunda-feira, fevereiro 25, 2008


O TEXTO ABERTO NA POESIA DE MARIA PETRONILHO

 O verso inicial na poesia de Maria Petronilho parece que vem quase sempre das ânsias, das recordações, dos medos da vida quotidiana, dos momentos de «matar a dor/da alma» (1) ou de «escrever/para me libertar de mim.» (2). Do seu discurso, da sua visão do cosmos, das suas saudades, das suas angústias, partem as palavras como aves soltas na aventura de viver um outro modo de cantar. A voz está presa a um tom magoado, mas vai subir e libertar-se nas paisagens oníricas:

 «A minha vida

é feita de

desertos

 

Levo a boca seca

e os lábios gretados

de tantos gritos

 

Oiço ao longe um rio

Vejo ao longe a luz

irisada

das gotas de água

que brincam nos seixos

Porque haverá tanto caminho

mas nunca lá chego?

Quem me impede de alcançar

o oásis que brilha?

 

No silêncio,

imensos, famintos,

meus olhos acesos! (3)

 

De outras vezes, como no poema Para a minha mãe, vai em busca de novos alentos:

«mãe coragem, atravesso

as altas chamas do mundo

e como tu vou cantando

o fado que, nos calhando,

na nossa voz reconheço,

e de coragem recobro

do pouco de ti que lembro». (4)

 

O turbilhão emotivo que atravessa esta poesia é um jogo de claro-escuro, de luz sombreada, de «parar no escuro/discernir o silêncio/para abranger a fulgência da luz/ e o prodigioso canto das cigarras.» (5) Maria Petronilho deixa sempre o texto aberto, isto é, nunca o fecha em mágoas ou em desencantos para poder ser partilhado, reescrito com outro vocabulário, com outros sonhos, com outras esperanças:

«Sozinha

...mas companheira

 

da inquietação cavaleira

cavalgo no tempo ainda

 

ligeira e longe me leva

- aventura, desventura-

 

gaivota sem rumo que deixa

argênteas pegadas n’areia

adormecida e fria

 

e na lua

o círculo d’uma asa ferida

 

velejeira que almeja

ainda espera

outra vida.» (6)

 

Nestes poemas de contrastes, de pulsações interiores e exteriores, de desassossegos e sobressaltos, existem algumas excepções. Uma delas está aí: Na Madrugada Medito:

 

 «sou livre como vento

Como este mar que sinto

Como o solo aonde piso

Como o ar onde me movo

como a música que oiço

como a luz e quanto vejo

no amor por quanto sinto

na paz de ser-se infindo. (7)

 

NOTAS

 

(1) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.5

(2) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.6

(3) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.56

(4) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.17

(5) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.51

(6) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.70

(7) Maria Petronilho, Nos Ponteiros da Alvorada, Edição de Autor, pg.90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, fevereiro 19, 2008



MEMÓRIAS DE UM CAPITÃO

(Guerrilha em Moçambique)

 por

JOSÉ VERDASCA

 


José Verdasca escreveu um livro que balança entre a ficção e a história, a geografia e a antropologia, a economia e a política. Os eventos ou os temas trabalhados (As vivências de um Capitão e a guerrilha em Moçambique) são inseridos numa ampla conjuntura cultural. Vários cenários se desdobram através da escrita e das emoções, a começar por Lisboa – a cidade dos anos sessenta com as suas luzes baças, a solidão nas esquinas, os quadros de infortúnio, as descobertas amorosas, a vida sumptuosa nos palacetes da Lapa, os banquetes, as palavras ditas em surdina, a crítica de uma elite liberal – dessa gente com inteligência reflexiva que se desviava cada vez mais do regime político, dos homens que «ocupavam o Parlamento sem nada fazer, discursavam sem nada dizer, e recebiam os polpudos salários sem os justificar e ou ganhar, com o que iam contribuindo, devido a sua criminosa omissão, para que o barco corresse para o precipício» (1) porque a verdade era amarga: «a guerra, criminosa e cruel, continuava a matar, a ferir, a mutilar, quando os mutilados, apenas entre as forças armadas portuguesas, já se aproximavam dos milhares.” (2)

Vem depois Moçambique, a chegada do jovem capitão a Porto Amélia, o primeiro olhar em volta. Vê «a maioria de uma população alienada, e em parte escravizada, descriminada social, económica e culturalmente, vivendo na periferia, quase sempre em «musseques», ou bairros do caniço (de bambu) à beira mar plantados, morando em palhotas de bambu, cobertas de capim, (...) sempre mantida à margem do progresso, desconhecendo o conforto, e afastada da mais elementar participação comunitária» (3). A força do testemunho revela a ideia, a inteligência, a sensibilidade do homem e do militar. O Capitão sabe que já é tarde para se solidarizar com as propostas renovadoras de Paiva Couceiro ou de Norton de Matos. Quase nada se fez após a queda da monarquia e da primeira republica e os tempos são outros: «os povos africanos, naquela altura, já tinham, principalmente, a inabalável disposição de – por todos os meios ao seu alcance - chegar à tão desejada independência política, sempre sonhando com a liberdade.» (4) Abriam-se as portas do futuro, dos dias de amanhã: «só ignorava esse fatal destino quem desconhecia a história, quem não sabia que, no mundo em que vivemos, tudo é redondo, esférico, cíclico, periódico». (5) Por isso, o memorialista não se compadece com a marcha absurda da política colonial, com a mentalidade e o comportamento da administração local: «era, quase sempre, caracterizada pela incompetência, pela boçalidade, e pela prática de injustiças, normalmente a favor das grandes companhias, que exploravam a mão-de-obra nativa, mas gratificavam os administradores, que a recrutavam». (6) Lembra a repressão sobre os makondes em Mueda, Junho de 1960, quando reclamavam da falta de água – lembra esse facto e deixa uma observação flagrante: «era de esperar que os makondes tivessem aderido, em massa, à organização política e guerrilheira Frelimo, fundada no Tanganica em 1962, e implantada em 25 de Setembro desse ano, na capital – Dar El Salam. Nesse caso, não poderíamos ter quaisquer dúvidas de que – muito em breve – a guerrilha iniciar-se-ia em Moçambique, no Planalto dos Macondes, região que reunia as melhores condições para tal, porque de vegetação densa, e de difícil acesso.» (7) E foi o que veio a suceder. «Na madrugada de 25 de Setembro de 1964, o capitão Daniel (o herói na ficção) foi acordado e chamado ao gabinete do comandante do batalhão, para – após um breve, incompleto, e pouco profissional relato do ataque efectuado por guerrilheiros ao posto administrativo do Chae, nessa mesma madrugada – receber a seguinte ordem (sic): reúna metade da sua companhia, a dois pelotões, junte-lhe os serviços necessários – secção de transmissões, cozinheiros, enfermeiro, e outros serviços – e siga o mais rapidamente para o Posto do Chae». (8) Cumpre estas ordens e lá vai, mas deixa muitas outras por cumprir porque se movimenta com os seus homens em busca de soluções para contrariar «a maldita cultura da guerra, que a todos ensina a prática da destruição e da violência, da brutalidade e da morte, a transformar cérebros e corações, e a perpetuar o que de mais condenável existe à face da Terra”. (9)

As «Memórias de um Capitão» não se confinam apenas a evocar os eventos do passado e do presente, a promover o reencontro do homem com a experiência de um breve período da sua vida e com o cosmos em que esta se inscreveu – elas erguem o pendão da paz, iluminam os valores humanos que são fundamentais para dar dignidade à vida quotidiana dos homens em sociedade.

NOTAS

(1) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.100

(2) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.100

(3) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.143

(4) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.137

(5) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.138

(6) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pp.180-181

(7) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.176

(8) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.188

(9) José Verdasca, Memórias de um Capitão, Universitária Editora, 2.ª Edição, Lisboa, 2004, pg.216

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, janeiro 19, 2008



FRAGMENTOS DE SOMBRAS
de
JOSÉ SOUSA VIEIRA





José Sousa Vieira continua a sua experiência poética‭ ‬sem recusar os momentos de lirismo e‭ ‬de inocência‭ ‬em quadros iluminados‭ ‬por‭ «‬um cavalo de cartão‭» ‬ou pela cal que‭ ‬escorre num banco de avenida,‭ ‬num banco solitário,‭ ‬num banco vazio:‭ «‬um banco branco/desejoso de conversar,‭ ‬/contou-me um segredo/que não me pediu para guardar://‭ ‬disse-me/que,‭ ‬nele,‭ ‬banco branco/‭ ‬por plátanos encoberto,‭ ‬/nas noites de luar,‭ ‬/vem,‭ ‬às escondidas,‭ ‬/o Rio Lima namorar.‭» ‬(1‭)‬ De súbito,‭ ‬um banco vazio‭ ‬-‭ ‬um‭ ‬objecto no espaço‭ ‬abre--se‭ ‬à poesia.‭ ‬(pág.33‭)‬.‭ ‬Esta é sem dúvida a função da arte literária,‭ ‬mas não é única.‭ ‬E o autor tem consciência disso.‭ ‬Aqui,‭ ‬nesta obra,‭ ‬muda‭ ‬várias vezes‭ ‬a atmosfera que se respira.‭ ‬As palavras saltam como chuvas‭ ‬nas quatro estações em paisagens de claridades e de sombras ou de‭ «‬fragmentos de sombras‭»‬.‭ ‬Dão‭ ‬lugar‭ ‬ao fado,‭ ‬talvez‭ ‬ao da saudade,‭ ‬do fatalismo,‭ ‬da resignação ou das cores sombrias das terras minhotas:‭ ‬«também de preto se escondem/Jovens mulheres pela saudade/‭ ‬De luto dos que não podem/Ver sorrir-lhes a idade.‭ ‬//‭ ‬E tanto amor assim perdido/Como o grão que se não colhe,‭ ‬/‭ ‬Na emigração,‭ ‬fado sentido/‭ ‬Da miséria que a nós tolhe.‭» ‬(2‭)‬ E dá-se conta de outras mensagens avessas ao conformismo‭ ‬que‭ ‬transitam‭ ‬nos seus versos‭ ‬em estado de alerta e‭ ‬distantes da alegria ou‭ ‬da festa:‭ ‬é o‭ «‬aroma de espingarda‭» ‬que se espalha no‭ ‬papel e‭ ‬a‭ ‬«mão bruta/astuta prostituta/mão dissimulada‭»‬ (3‭) ‬que‭ ‬emerge como‭ ‬símbolo‭ ‬desprezível‭ ‬da sociedade do nosso tempo.‭ ‬O poeta‭ ‬procura refazer valores e‭ ‬reinventar a vida,‭ ‬mesmo quando canta a sua pátria num tom magoado:

‭«‬Saudoso das naus
naufragadas,
-‭ ‬outros mundos
descobertos-
de mansinho
para não as acordar
Portugal vai-se
afundando
lentamente no mar.‭» ‬(4‭)

Mas‭ ‬não deixa‭ ‬nunca‭ ‬morrer a esperança‭ ‬porque no futuro‭ «‬hão-de navegar sem mar/‭ ‬as naus doutras descobertas/Por Portugal a trilhar.‭» (‬5‭) ‬Trata-se aqui de um‭ ‬sonho,‭ ‬de acreditar na alvorada das ideias novas,‭ ‬no desabrochar de‭ ‬novas mentalidades e‭ ‬da vontade dos homens em‭ ‬construir obras diferentes‭ «‬que nos tirem dos atrasos/das tormentas de betão/‭ ‬que nos deixem menos cores/nos mapas da emigração.‭»‬ (6‭) ‬E por detrás de tudo,‭ ‬«dos outros ventos/em que esta poesia voa‭»‬ (7‭)‬,‭ ‬das imagens não explícitas,‭ ‬dos signos ocultos,‭ ‬a lírica de José Sousa Vieira aproxima-se da Canção de outro poeta:‭



O peso do mundo‭

é o amor.‭



Sob o fardo‭

da solidão,‭

sob o fardo‭

da insatisfação‭


o peso‭

o peso que carregamos‭

é o amor.‭ (‬8‭)

NOTA
A capa e as ilustrações são da autoria de Madalena Martins. A artista carregou esta obra com outros enigmas. Em tons de brancos e negros, em linhas horizontais e verticais, deixou aqui também um sopro poético.





1.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.33

2.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.34

3.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.42

4.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.52

5.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.69

6.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.69

7.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.75

8.Extracto da Canção de Allen Ginsberg.

sábado, dezembro 29, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br



PADRE MANUEL DIAS FAZ A HISTÓRIA DO MONTE DE SANTA MARIA MADALENA



Antigamente, «subia-se ao Monte das Santas acompanhando o andor de Santa Maria Madalena que saía da Misericórdia.» (1) Havia ermida, penitência, música, merenda e muitos fiéis. Creio que foi o povo e o acto religioso que em primeiro lugar chamaram a atenção para este lugar. Em 1926, «trabalhava outra Comissão encarregada pela Comissão Administrativa da Câmara para continuar o aformoseamento do parque sobre um critério «activo, inteligente e esmerado». (2) A partir dessa época o Monte de Santa Maria Madalena passa a enquadrar-se no urbanismo burguês e romântico que vinha já do século XIX. Estavam ainda em moda as viagens em busca de espaços encantados, mergulhados no imaginário e no sonho. Aparecem nas narrativas, nos poemas e nos desenhos, muito antes da fotografia e dos postais. Foi-se construindo assim uma forma de ver, de contemplar os rios e as montanhas, os parques naturais e as utopias do paraíso. O Padre Manuel dias fez a história desse lugar, não no tempo breve, mas no tempo de longa duração: «fica-se a saber que o Monte da Madalena tem história e tem amigos. E que um deles,» diz o Padre Dias, «por todos os motivos e mais um, sou eu.» (3)

O fotógrafo limiano Amândio de Sousa Vieira editou a obra, fez a introdução e uma breve descrição da vida do autor relacionada com os seus múltiplos saberes.



NOTAS

(1) Padre Manuel Dias, O Monte de Santa Maria Madalena, Lethes Digital, Ponte de Lima, pg.13

(2) Idem, idem, pg.18

(3) Idem, idem, pg.10



terça-feira, dezembro 11, 2007


luis2101@sapo.pt















«NOS CONFINS DO TEMPO»
DE FRANKLIM FERNANDES


«Nos Confins do Tempo» reúne um conjunto de textos sobre vários temas. São memórias, evocações da mocidade, relatos de aventuras, descrições de paisagens, de costumes, de singularidades e de labirintos da vida real que emergem no discurso eloquente e na prosa escorreita de Franklim Fernandes. Os personagens, o velho pedinte, o estudante mandrião, os militares «embriagados e desordeiros», o professor obcecado por vergastas, «distribuindo bordoada», o autarca «vaidoso e presumido», o político dorminhoco, a raposa lá do sítio, aparecem caracterizados através do traço exagerado, próximo da caricatura. Mas o Autor, para lá da capacidade de reter a peripécia ou o caso picaresco, não deixa de revelar um narrador instintivo, que não oculta as emoções, deslumbrado com as tintas que cercam «Arzozelo, Minha Terra»: o «verde do mato e da carqueja pintalgados de amarelo rutilante».

Luís Dantas

domingo, maio 20, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br

FEIRAS NOVAS – 1826-2006

DE

AMÂNDIO SOUSA VIEIRA




Depois de «O Minho Pitoresco» de José Augusto Vieira, a bibliografia do Minho e de Ponte de Lima tem agora mais uma obra monumental: Feiras Novas - 1826-2006.

«Amândio de Sousa Vieira foi recolhendo, aqui e acolá,» como já disse noutro sítio, «essas flores roxas e amarelas para colorir e perfumar um dos temas mais atraentes da colectividade limiana»: as nossas festas. Um conjunto imenso de documentos proveniente dos arquivos municipais, das confrarias, da chancelaria régia, da literatura, da imprensa, das artes gráficas, pictóricas e fotográficas, vieram povoar esta obra. Todos esses documentos colocam em cena os homens da terra no espaço e no tempo com os seus sentimentos, as suas crenças, os seus modos de vida, os seus trajes, as suas discórdias, os seus lamentos, os seus dias de alegria, os seus sonhos.

Muito tempo depois, parece-nos escutar ainda a voz do rei, de Dom Pedro IV a fazer saber que os moradores da vila de Ponte de Lima pediam a concessão de três dias de feira anual (19,20,21 de Setembro) para se conservar o culto de Nossa Senhora das Dores. A graça foi concedida no dia de hoje, 5 de Maio, mas no ano já distante de 1826.

São estas fontes que nos encantam porque cativam o tempo longo, o tempo profundo de quase dois séculos e deixam as nossas gentes e as nossas festas na rua em bulício durante aqueles três dias de Setembro. Diante dos nossos olhos deslocam-se os carpinteiros com as tábuas às costas para montar as barracas, milhares de copinhos iluminam as ruas e a porta da Igreja, as tigelas de sebo deixam os seus «lumes» nos canteiros do jardim, nos muros das casas senhoriais e nos monumentos, escutam-se bandas de música e tambores, «tocatas de músicos da aldeia», «descantes e risadas», imagina-se o fogo do ar e preso, o baile mascarado, o baile da espadelada, o cortejo luminoso, a representação teatral, espectáculos de «bailarinas espanholas», a feira do gado, a espera dos toiros e as touradas, o ciclismo, as corridas de automóveis, os jogos de futebol entre o Lusitano Futebol Clube e o Sport Club Vianense, o cinematógrafo popular, o pimpampum e as quermesses, a roda dos cavalinhos e o circo, os gigantones e os cabeçudos, os Zés pereiras, a «missa cantada acompanhada a instrumental» e a procissão. Nestas transposições de memórias, vê-se o povo a encher o areal e o passeio, as «moças, em mangas, coletes vistosos bordados a retrós», os «rapazes, jaqueta ao ombro, chapéu derrubado, ramo de alfádega atrás da orelha» e os «rapagões (…) experimentando as cornetas de barro». Também nos chegam momentos de alguma tristeza: a «chuva torrencial não nos deixou um momento» diz António Feijó numa carta enviada a Luís de Magalhães, seu grande amigo. Nesse ano de 1909,lá está o seu (e o nosso) desalento: «não houve feira, nem fogo, nem iluminações.»

Anos após ano, mil e um quadros das nossas festas foram evocados pela sensibilidade dos nossos prosadores: António Ferreira, Rodrigo Veloso, João Gomes D’Abreu, Miguel de Lemos, Delfim Guimarães, D. João de Castro, José Castilho, Eduardo de Castro e Sousa, Carlos Passos, José Velho Dantas, Conde d’Aurora, o António e a Maria Manuela Couto Viana, Luís Forjaz Trigueiros, António Amorim, Augusto de Castro e Sousa, José Crespo, Francisco Sampaio, Daniel Campelo, José Rosa Araújo, Padre Manuel Dias, Cláudio Lima, Carlindo Vieira, Adelino Tito de Morais, Severino Costa, Franclim Sousa, Amândio Sousa Dantas, José Carlos Magalhães Loureiro, João Barros, Alberto do Vale Loureiro, Faria de Morais, César Lima, José António Cunha, João Carlos Gonçalves, Rodrigo Melo, Maria João Vieira, D. Carlos Martins Pinheiro, Rosário Sá Coutinho e muitos jornalistas anónimos do Comércio do Lima, Estrela do Lima, Echo do Lima, Democracia do Lima, O Lethes, Rio Lima, Cardeal Saraiva, Jornal do Minho, A Semana, Correio do Norte, Vida Nova, A Voz Académica, Povo do Lima, Alto Minho. Entrevistados por César Lima, Aníbal Rocha e Abel Braga deixaram aqui também as suas vivências. Para juntar todo o nosso património cultural vieram também os poetas, a lírica limiana de António Feijó, Pereira da Cunha, Teófilo Carneiro, António Vieira Lisboa, Victor de Castilho, João Marcos, Maria Cândida Brandão, Cláudio Lima, Amândio de Sousa Dantas, Fátima Meireles, José Vieira, Carlos Lima Magalhães, Casimiro Pereira Alves. E por último, os vocabulários significantes da pintura do Américo e do Ovídio Carneiro, da Madalena Vieira Martins e das fotografias do Conde d’Aurora, do Engenheiro João D’Abreu Lima, do José Pereira Marinho, do José Dantas, do Professor José Manuel Silva e do Amândio de Sousa Vieira. E é ele, o Amândio, a lembrar aqui que fotho, em grego, quer dizer luz na nossa língua. A luz mágica das suas fotografias, a luz mágica dos afectos que deixou a palpitar nesta obra, a luz mágica destas imagens…

Luís Dantas

sexta-feira, maio 18, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br


CLÁUDIO LIMA:

OS LUGARES DA POESIA


Cláudio Lima acaba de editar a sua segunda obra em verso: Itinerarium. O poeta percorre neste livro os caminhos de uma viagem circular à procura da pureza inicial da palavra. Exprime em vários momentos o desencanto de um tempo concreto ( «a grande melancolia/ de não haver poesia/ até ao fim”) para depois se evadir num universo poético de outras dimensões. Vive e vibra com a sonoridade dos espaços mágicos: “antes da palavra, o sopro/ música singular, fonema/ errático, pulsar de signo/ hibernado”. Porque, afinal, no rumor da água, no canto das aves, nas vozes dos animais, no sibilar do vento, na colocação dos frutos, no crepitar do fogo, nos primeiros objectos e no espanto de todas as coisas está o segredo da palavra. Todo esse espanto significa a passagem para a festa da comunicação:

“ no tempo em que os homens falavam

as palavras eram nítidas

e vivas

eram palpáveis como coisas

e dóceis

e doces

no tempo em que os homens falavam

as palavras

como coisas:

o arco a funda

o fogo

o hálito lavado do amor

o baptismo imediato do espanto

a pergunta

sem os dígitos banais do telefone

no tempo em que os homens falavam

até os hiatos de silêncio

eram mais papoilas que metáforas”.

Assim emergem pelo conhecimento histórico e pelo ânimo interior do poeta os lugares primitivos e encantatórios da construção mágica da linguagem.

Da interpenetração do homem que escreve no “lento/ (...) ofício da mão» com esses lugares da poesia, a palavra é reinventada e chega até nós num “rumor/de antiquíssimos pastores/ soletrando em flauta/ os meridianos fonemas/ da saudade”.


Luís Dantas


luisdantas1113@yahoo.com.br


Amélia Aguiar Andrade
Um Espaço Urbano Medieval:

PONTE DE LIMA


UMA VIAGEM FASCINANTE

ATRAVÉS DE UMA VILA MEDIEVAL



Na tarde em que nos encontramos, na Universidade Nova de Lisboa, a historiadora tem no olhar a luz que se espalha pelos recantos da vila. São recordações da descoberta de "um espaço urbano (que) tinha escapado à descaracterização brutal que atingiu tantos outros núcleos urbanos da região". Frequentava então, no ano lectivo de 1981-82, o curso de mestrado em História Medieval da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. "Do curriculum então em vigor", diz ela, "fazia parte um seminário sobre "cidades medievais portuguesas orientado pelo Professor Doutor A.H. Oliveira Marques, no qual se pedia a cada aluno que escolhesse um núcleo urbano para investigar durante os dois anos que o seminário durava. Para alguém que crescera e sempre vivera no Entre Douro e Minho tornou-se óbvia a preferência por uma vila ou cidade aí situada. E Ponte de Lima parecia ser a escolha certa. " E foi. Feita a opção, a maior parte do seu tempo foi vivida na aventura da descoberta de documentos, de "tudo o que, na herança subsistente do passado, pode ser interpretado, como um índice revelador de qualquer coisa sobre a presença, a actividade, os sentimentos e a mentalidade do homem de outrora". "Tinha conhecimento, através de um inventário de meados do século, da existência de "documentação prometedora" nos nossos arquivos. E the last but not the least (1), havia a certeza de ter encontrado um objecto de pesquisa que nunca deixaria de me surpreender com a sua beleza. " Mas eram necessárias outras buscas: "os fundos documentais conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo foram pacientemente percorridos, em busca de documentos que, directa ou indirectamente, se relacionassem com Ponte de Lima." A partir daí, com os seus materiais, foi reconstituindo a paisagem, o espaço urbano e o movimento das «gentes limianas". E é precisamente nesta reconstituição que ressalta o luminoso e admirável talento da historiadora. Depois de percorrermos a sua obra - uma das obras-primas da historiografia limiana! - sentimos o palpitar de outros espaços, de outras ruas e de outras vidas.
De facto, a torrente avassaladora da escrita, que corre num rumor de alegria, arrasta-nos para tempos e espaços até então ocultos. "Espaços intensamente humanizados pontilhavam-se de casas, eiras, adegas e currais e até atafonas". Os ritmos de trabalho aparecem para ligar os homens à história e à comunidade: "tanto se ia à rua das Pereiras para fazer uma pública-forma na casa do tabelião Lourenço Afonso como a um ourives na rua de Braga; remendava-se a roupa velha na rua do Souto, no jubileiro Gonçalo Anes enquanto os serviços de um almocreve se podiam requisitar a Lourenço Esteves morador na rua da Fraria. " Mas as surpresas não acabam aqui. São infinitas. Um exemplo, apenas: se hoje nos deslocarmos à antiga venda do Xico Pessegueiro para beber uma tigela de vinho, não é possível fazê-lo sem evocar com um olhar novo a velha rua da Ribeira com as suas peixeiras. Eu vou lá, ou à antiga rua dos Mercadores, saudar a Amélia. A Amélia Aguiar Andrade, e o seu livro: uma obra para ser lida, amada e recriada por professores de História e alunos das nossas escolas.

Luís Dantas

(1) «o último, mas não o menos importante».

quinta-feira, maio 17, 2007


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CÂNDIDO MONTEIRO

ÁGUAS DE REGA E LIMA,
SEU APROVEITAMENTO E IMPLICÂNCIAS











Os conflitos domésticos relacionados com as águas de rega não são velhos. Nos tempos medievais, as terras não estavam tão divididas como estão hoje. As grandes extensões, como lugares e aldeias inteiras, pertenciam ao rei (os reguengos, os aforamentos), nobres, cavaleiros e ao clero (os coutos, as imensas áreas conventuais). Nessa época, vivia-se com muitos condicionalismos sociais: «cultivar a terra e alimentar os animais é para o vilão (o antepassado dos nossos camponeses) a batalha. Porque os cavaleiros e o clero vivem do que eles trabalham.
O vilão trabalha muito e sofre: semeia o trigo, o centeio, grada a aveia, ceifa o prado, tosquia a lã, faz as cercas, levanta paliçadas, cava os viveiros nos rios, cumpre corveias, sofre as pilhagens e paga cem direitos.
Nunca comerá bom pão.
Se tem um bom pato ou franga, ou bolo, ou farinha branca, destina-se aos seus senhores.
E se tem vinho da sua vinha, o senhor engana-o com louvores ou olhares, de tal maneira que o seduz e lhe fica com ele.
O camponês nunca prova um bom bocado, nem de ave nem de caça. Se tem pão escuro, leite ou manteiga, já fica contente.» Mas vive tranquilo com a ajuda da filharada. E quando rega as terras não sofre ameaças dos vizinhos porque até a água, o ribeiro e a nascente são do senhor.
A divisão das propriedades no nosso reino, ao contrário dos países do norte, fez-se tarde. Foi preciso acabar com o morgadio, com esse conjunto de bens vinculados, indivisíveis e inalienáveis que, por morte do possuidor, passava apenas para o filho mais velho. Quando lido com este conceito de «morgadio», chegam-me sempre as recordações das primeiras leituras, da descoberta dos primeiros livros. Entre eles, a Morgadinha dos Canaviais de Júlio Diniz.
Vejo então um fidalgo de Lisboa a caminho da província. Vem a ares e mostra-se impaciente para chegar ao destino. E por isso não cessa de interpelar o companheiro de jornada:
- Onde está a aldeia que dizias, homem?
- Daí já se vê disse o almocreve, correndo para alcançar o cavaleiro. Não vê V. S.a, além, além, aqueles pinheirais mansos?
- Vejo, sim.
- Pois já são da freguesia. Se fosse mais claro havia de avistar a casa do guarda. E a tapada dos Bajudos, que pertence à Morgadinha dos Canaviais.»
Descem o vale. O guia não se cala:
« - Estes campos e lameiros ia dizendo são da morgadinha dos Canaviais; andam arrendados a um compadre meu.»
Prosseguem a caminhada com a bênção da música da água e o gemer das rodas das azenhas.
«- São os açudes do Casal dizia o almocreve, berrando para se fazer ouvir através do estrondo da torrente. Pertencem à morgadinha dos Canaviais.» E ainda faltava um bom bocado para chegar à quinta dos Canaviais. Em tais terras não podem emergir disputas de água, como muito bem se pode concluir. Só depois do último quartel do século XIX é que esta situação muda. As propriedades começam a passar para todos os filhos. A divisão das grandes propriedades está em curso e chega aos nossos dias com as atribulações que são conhecidas. Foram necessários corpos de especialistas para gerir as contendas. E é neste contexto que emerge o nosso autor, o Cândido Monteiro, esse grande perito na matéria de divisão de águas. Um homem respeitado no nosso mundo rural pelos conceitos de «justiça» que estão ligados à sua sensibilidade.
Esta obra reflecte apenas uma pequena amostra do seu longo trabalho, do seu contacto estreito com as nossas aldeias. Podemos imaginar a sua ida ao campo, ao eido, à leira e observar ali as nascentes, calcular o caudal de água à hora, ao minuto, registar as variantes que ocorrem nas várias estações do ano, medir as terras, considerar as dificuldades de rega, respeitar as velhas práticas de irrigação e propor depois a repartição das águas de rega para serem sancionadas pelas partes e pela justiça. Trata-se de um documento sociológico de múltiplos significados que coloca em cena um tema fundamental da vida quotidiana da nossa gente do campo: a rega, que «é não só um facto social, uma medida que envolve os seus agentes numa mesma actividade estival, fazendo com que mantenham regularmente entre si e com os outros diversas relações de troca, mas também um facto social total, uma vez que atinge todos os domínios da vida social: o jurídico, o económico, o religioso, o parentesco, a ética e as representações simbólicas.»
Este trabalho é um importante contributo para estudos mais profundos nas áreas da sociologia e da antropologia.
Por aqui passa muita da sua experiência, o seu testemunho, modos de viver e algumas estórias entre muitas outras que ele guarda e devia contar numa outra hora.


segunda-feira, maio 14, 2007


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A FEIRA DE PONTE
Conde d'Aurora

Arquivo de Ponte de Lima, 2005


O sentimento do passado não nos larga, faz parte integrante do homem solitário ou inserido no grupo. As mil e uma experiên­cias vividas directamente ou difundidas pelo costume de cada época animam intensamente a nossa memória social num pro­cesso sublime de fruição e de estremecimento. Mas ao passar dos séculos, desde as culturas orais até aos nossos dias, fi­caram para trás múltiplas representações de uma comunida­de. O historiador de ofício tem a possibilidade de reconstruir quadros remotos e esquecidos, mas também reconhece que muitos outros desapareceram definitivamente. Esta reflexão serve para enaltecer a luz do documento e o gé­nio criador do homem que o transmitiu no seu tempo a outros tempos. E é assim, no meio de um grande regozijo, que esta­mos aqui a evocar com encanto um dos magníficos textos literários de um escritor nato da escola romântica: o Conde d'Aurora. A Feira de Ponte propicia-nos as delícias de uma leitura do começo ao fim. É um registo vivo e flagrante que ilu­mina a cultura da nossa região materna. Um apelo ao olhar para reter a paisagem, a cor, o som e o movimento das imagens. Uma partilha com outros: Oh! Se puderes, forasteiro, vem a Ponte de Lima num dia de mercado. E venha então o leitor-visitante, forasteiro ou não, nesta manhã de sol, desco­brir esta feira de há décadas, diferente das que se realizam hoje às segundas, de quinze em quinze dias (às outras, chama-lhes o povo solteiras).

Luís Dantas

domingo, maio 06, 2007


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ANTÓNIO VIEIRA LISBOA





Poetas assim só aparecem de séculos em séculos e na abundante poesia lírica portuguesa não chegam a contar‑se pelos dedos das duas mãos.

Jaime Brasil

Um lugar dos melhores entre os melhores poetas modernos.

Rebelo de Bettencourt

A marca incontestável dum artista.

Raúl Leal


António Vieira Lisboa publica a maior parte dos seus livros na década de 40 do século XX. Nesse mesmo período encontram‑se a compor a sua experiência criativa outros poetas: Alberto de Serpa, Vitorino Nemésio, Francisco Bugalho, Fausto José, Pedro Homem de Melo, Mário Dionísio, Álvaro Feijó, Joaquim Namorado, Sidónio Muralha, Augusto dos Santos Abranches, Natércia Freire, Irene Lisboa, Rui Cinatti, Tomaz Kim, José Blanc de Portugal,José Régio, António de Navarro e muitos outros. Os versos movem‑se através das tertúlias de café, dos jornais, dos livros e das revistas que circulam do norte ao sul do país. São múltiplas as tendências e as estéticas em confrontos intermináveis, desde o modernismo ao neo‑realismo. O Poeta de Versos Estranhos (1940) ou de Poemas de Amor e Dúvida (1941) está afastado de todos esses círculos. Talvez se aproxime do grupo ligado aos Cadernos de Poesia(1940), ao seu manifesto: «Destinam‑se estes cadernos a arquivar a actividade da poesia actual sem dependências de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas. A poesia é só uma!»(1)

António Viera Lisboa constrói suas próprias normas no encalço de uma poética personalíssima. Toda a sua arte nasce de uma chama interior, de uma sensação de vazio, de desamparo, de insatisfação. A escrita é o reinventar da vida em águas mais mansas, a busca da quietude plena do espírito, o desfazer do caos. E é quase sempre a mulher que emerge nos versos, nas estrofes: «A terra é seca, é árida, é ingrata/sem ter o olhar de uma mulher./Só a mulher à terra prende e ata/ com invisível nó que o Amor sugere.» (2)De outro modo, a existência não faz sentido. «Tudo o que sinto ou sonho e me desvaira,/ a cor, o som, o aroma da paisagem/ que eu vejo longe porque d’alto paira/ sinto puríssimos em certa imagem...// A imagem d’Essa doce rapariga/alegre, sã e fresca como a aragem/ do Amor que a face ainda me fustiga/ para que eu viva a Vida com coragem.» (3) A mesma obsessão quando a paisagem se desdobra diante dos seus olhos: «Ao longo desse langoroso Lima/ o pensamento em que me alongo pende/ para um barco à vela rio acima, / um barco à vela que na água esplende.// E a vela arfando fresca ao leve vento/ lembra‑me, branca, a sua bela blusa,/ a blusa dela justa – o meu tormento - / com que ficava, olhando-A, tão confusa. // O barco à vela, majestosamente,/ que ao longo desse rio sobe além/ parece‑me Ela a aproximar‑se, rente,/ que em Seu andar inconfundível vem.» (4) Esta imagem não é mais do que o vibrar do sonho na palavra, na música, no ritmo. Uma aspiração profunda realizada no momento encantado de criação que é ao mesmo tempo vida e arte, realidade e fantasia, serenidade e arrebatamento, finito e infinito. Foi o modo que o poeta achou para «Viver a Vida toda Amor/só ao sabor/ do Coração.» (5) Mas a paixão sublime ficou apenas na sua lírica amorosa e sensual, na mulher que tão depressa aparece como desaparece do seu caminho. E é isso que se pode constatar no poema Na Cidade: «Essa de que nem sei o nome/ segui-A ao longo da Cidade plena/ de gente que ia e vinha lesta...// Depois perdi‑A/ na multidão...// Mas para sempre me deixou em cada artéria/ do Coração/ essa lembrança duma moça esguia/ frágil e séria/ que um dia vi com emoção.// Segui o meu destino...// Por mais que ande,/ não tornarei a ver seu Corpo fino...// A Cidade é tão grande!...» (6) Num outro exercício muito semelhante, A uma Desconhecida, regista as mesmas comoções vertiginosas: «Esse olhar íntimo mas fugitivo/ duma Desconhecida penetrou‑me/ de tal maneira a minha Alma ao vivo/ que pensativo, triste até, deixou‑me.// Esse olhar doce, súplice estragou‑me,/ assim tão momentâneo e tão preciso,/ a tarde toda... O meu prazer levou‑me.// E eu vendo‑A, estático, indeciso,/ fiquei‑me a olhá-La, alheio e só, perplexo...// !¿ Porque não segui eu essa mulher/ se ainda agora o Seu olhar me fere?!// ¿ Era o Amor que me passou à beira?/ ¿ A imagem d’Ele em pálido reflexo/ neste bulício da cidade inteira/ quase sem tempo em seu viver sem nexo?» (7)

António Vieira Lisboa foi o poeta das emoções, o cantor do Amor e da Mulher, mas foi também o cantor do Lima: «Sete vezes o Rio há‑de encher/ e subir ao «Passeio» da vila./ Cada vez há‑de ser Lua Cheia/ que, ao descer o «Passeio», vigila.// Doze meses é quanto medeia/ cada ciclo dos tais que hão‑de ser./ Sete vezes será Lua Cheia./Sete cheias o Rio há‑de ter.// Sete vezes, não mais, nunca menos/ p’ra que o ano nos venha folgado.../ P’ra que haja bons milhos, bons fenos/ - a fartura da gente e do gado.» (8)

Luís Dantas

NOTAS

(1) João Gaspar Simões, Itinerário Histórico da Poesia Portuguesa, Biblioteca Arcádia de Bolso, Lisboa, pg. 372

(2)António Vieira Lisboa, Chão de Amor, Editorial Nós, Braga, 1944, pg. 5

(3)António Vieira Lisboa, Chão de Amor, Editorial Nós, Braga, 1944, pg.11

(4)António Vieira Lisboa, Ao Longo do Rio Azul, Edição de Autor, Ponte de Lima, 1949, pg. 12

(5)António Vieira Lisboa, Versos Estranhos, Livraria Portugália, Lisboa, 1940, pg.8

(6)António Vieira Lisboa, Versos Estranhos, Livraria Portugália, Lisboa, 1940, pp.44-45

(7)António Vieira Lisboa, Mulheres, Livraria Bertrand, Lisboa, 1942, pg. 45

(8) António Vieira Lisboa, Ao Longo do Rio Azul, Edição de Autor, Ponte de Lima, 1949, pg. 50

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NORTON DE MATOS
VERSUS
EGAS MONIZ

UM DUELO HISTÓRICO

POR JOÃO DE ARAÚJO PIMENTA



O livro «Norton de Matos Versus Egas Moniz - um Duelo Histórico» vem evocar um quadro paradoxal das relações dos homens no tempo. O autor, que pertence a uma geração de médicos que trouxe renovação à prática da medicina, fez uma pesquisa fecunda e construiu uma síntese admirável sobre o duelo , a vida e a morte, as controvérsias, os códigos, os rituais, as armas, o elenco de apoio. « A acompanhar os padrinhos havia a indispensável equipa médica não só para tratar os possíveis feridos, mas também para emitir parecer acerca da importância dos ferimentos na prossecução ou não da luta, e ainda para a desinfecção das espadas, tarefa realizada antes do prélio e sempre que ao decorrer destes houvesse algum toque fortuito de arma no solo. A prática corrente desta desinfecção talvez explique a raridade de referências na nossa literatura médica a casos de tétano nos duelistas, se levarmos em conta o risco que estes corriam de, com os ferimentos, contraírem esta infecção grave».(1)

E estamos assim colocados em face do evento aqui tratado na conjuntura agitada da época: « o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, a Revolução de 5 de Outubro de 1910, as lides das sociedades secretas, os surtos de greves, sedições e tumultos acentuaram esse alvoroço, em especial nas classes política e militar da capital. A aumentar este desvario surgiu uma onda de duelos no seio destas mesmas classes cujos membros, envolvidos numa notória impunidade, procuravam usar esta forma de combate para lavar as mal chamadas questões de honra.» (2)

Egas Moniz fez nessa ocasião um discurso na Câmara dos Deputados sobre a questão de Ambaca. «Após citar o meu nome», disse Norton de Matos, empregou expressões que me ofendem na minha honra e dignidade.» (3)Como não houve desagravo, os dois vultos da nossa história cruzaram armas para matar ou morrer. Mas o desfecho não foi trágico: ambos ficaram feridos. Mais grave foi a lesão de Norton de Matos e por isso, na opinião dos médicos, «o duelo não podia prosseguir». (4)

João de Araújo Pimenta deixou nesta obra um registo vibrante e pormenorizado que é imprescindível para a outra História: a das Mentalidades.

Luís Dantas

(1) João de Araújo Pimenta, obra citada, pp. 17-18

(2) João de Araújo Pimenta, obra citada, pg. 7

(3) João de Araújo Pimenta, obra citada, pg. 31

(4) João de Araújo Pimenta, obra citada, pg. 43