sábado, janeiro 19, 2008



FRAGMENTOS DE SOMBRAS
de
JOSÉ SOUSA VIEIRA





José Sousa Vieira continua a sua experiência poética‭ ‬sem recusar os momentos de lirismo e‭ ‬de inocência‭ ‬em quadros iluminados‭ ‬por‭ «‬um cavalo de cartão‭» ‬ou pela cal que‭ ‬escorre num banco de avenida,‭ ‬num banco solitário,‭ ‬num banco vazio:‭ «‬um banco branco/desejoso de conversar,‭ ‬/contou-me um segredo/que não me pediu para guardar://‭ ‬disse-me/que,‭ ‬nele,‭ ‬banco branco/‭ ‬por plátanos encoberto,‭ ‬/nas noites de luar,‭ ‬/vem,‭ ‬às escondidas,‭ ‬/o Rio Lima namorar.‭» ‬(1‭)‬ De súbito,‭ ‬um banco vazio‭ ‬-‭ ‬um‭ ‬objecto no espaço‭ ‬abre--se‭ ‬à poesia.‭ ‬(pág.33‭)‬.‭ ‬Esta é sem dúvida a função da arte literária,‭ ‬mas não é única.‭ ‬E o autor tem consciência disso.‭ ‬Aqui,‭ ‬nesta obra,‭ ‬muda‭ ‬várias vezes‭ ‬a atmosfera que se respira.‭ ‬As palavras saltam como chuvas‭ ‬nas quatro estações em paisagens de claridades e de sombras ou de‭ «‬fragmentos de sombras‭»‬.‭ ‬Dão‭ ‬lugar‭ ‬ao fado,‭ ‬talvez‭ ‬ao da saudade,‭ ‬do fatalismo,‭ ‬da resignação ou das cores sombrias das terras minhotas:‭ ‬«também de preto se escondem/Jovens mulheres pela saudade/‭ ‬De luto dos que não podem/Ver sorrir-lhes a idade.‭ ‬//‭ ‬E tanto amor assim perdido/Como o grão que se não colhe,‭ ‬/‭ ‬Na emigração,‭ ‬fado sentido/‭ ‬Da miséria que a nós tolhe.‭» ‬(2‭)‬ E dá-se conta de outras mensagens avessas ao conformismo‭ ‬que‭ ‬transitam‭ ‬nos seus versos‭ ‬em estado de alerta e‭ ‬distantes da alegria ou‭ ‬da festa:‭ ‬é o‭ «‬aroma de espingarda‭» ‬que se espalha no‭ ‬papel e‭ ‬a‭ ‬«mão bruta/astuta prostituta/mão dissimulada‭»‬ (3‭) ‬que‭ ‬emerge como‭ ‬símbolo‭ ‬desprezível‭ ‬da sociedade do nosso tempo.‭ ‬O poeta‭ ‬procura refazer valores e‭ ‬reinventar a vida,‭ ‬mesmo quando canta a sua pátria num tom magoado:

‭«‬Saudoso das naus
naufragadas,
-‭ ‬outros mundos
descobertos-
de mansinho
para não as acordar
Portugal vai-se
afundando
lentamente no mar.‭» ‬(4‭)

Mas‭ ‬não deixa‭ ‬nunca‭ ‬morrer a esperança‭ ‬porque no futuro‭ «‬hão-de navegar sem mar/‭ ‬as naus doutras descobertas/Por Portugal a trilhar.‭» (‬5‭) ‬Trata-se aqui de um‭ ‬sonho,‭ ‬de acreditar na alvorada das ideias novas,‭ ‬no desabrochar de‭ ‬novas mentalidades e‭ ‬da vontade dos homens em‭ ‬construir obras diferentes‭ «‬que nos tirem dos atrasos/das tormentas de betão/‭ ‬que nos deixem menos cores/nos mapas da emigração.‭»‬ (6‭) ‬E por detrás de tudo,‭ ‬«dos outros ventos/em que esta poesia voa‭»‬ (7‭)‬,‭ ‬das imagens não explícitas,‭ ‬dos signos ocultos,‭ ‬a lírica de José Sousa Vieira aproxima-se da Canção de outro poeta:‭



O peso do mundo‭

é o amor.‭



Sob o fardo‭

da solidão,‭

sob o fardo‭

da insatisfação‭


o peso‭

o peso que carregamos‭

é o amor.‭ (‬8‭)

NOTA
A capa e as ilustrações são da autoria de Madalena Martins. A artista carregou esta obra com outros enigmas. Em tons de brancos e negros, em linhas horizontais e verticais, deixou aqui também um sopro poético.





1.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.33

2.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.34

3.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.42

4.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.52

5.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.69

6.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.69

7.Fragmentos de Sombras,‭ ‬Edição de autor,‭ ‬Ponte de Lima,‭ ‬1996,‭ pág‬.75

8.Extracto da Canção de Allen Ginsberg.

sábado, dezembro 29, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br



PADRE MANUEL DIAS FAZ A HISTÓRIA DO MONTE DE SANTA MARIA MADALENA



Antigamente, «subia-se ao Monte das Santas acompanhando o andor de Santa Maria Madalena que saía da Misericórdia.» (1) Havia ermida, penitência, música, merenda e muitos fiéis. Creio que foi o povo e o acto religioso que em primeiro lugar chamaram a atenção para este lugar. Em 1926, «trabalhava outra Comissão encarregada pela Comissão Administrativa da Câmara para continuar o aformoseamento do parque sobre um critério «activo, inteligente e esmerado». (2) A partir dessa época o Monte de Santa Maria Madalena passa a enquadrar-se no urbanismo burguês e romântico que vinha já do século XIX. Estavam ainda em moda as viagens em busca de espaços encantados, mergulhados no imaginário e no sonho. Aparecem nas narrativas, nos poemas e nos desenhos, muito antes da fotografia e dos postais. Foi-se construindo assim uma forma de ver, de contemplar os rios e as montanhas, os parques naturais e as utopias do paraíso. O Padre Manuel dias fez a história desse lugar, não no tempo breve, mas no tempo de longa duração: «fica-se a saber que o Monte da Madalena tem história e tem amigos. E que um deles,» diz o Padre Dias, «por todos os motivos e mais um, sou eu.» (3)

O fotógrafo limiano Amândio de Sousa Vieira editou a obra, fez a introdução e uma breve descrição da vida do autor relacionada com os seus múltiplos saberes.



NOTAS

(1) Padre Manuel Dias, O Monte de Santa Maria Madalena, Lethes Digital, Ponte de Lima, pg.13

(2) Idem, idem, pg.18

(3) Idem, idem, pg.10



terça-feira, dezembro 11, 2007


luis2101@sapo.pt















«NOS CONFINS DO TEMPO»
DE FRANKLIM FERNANDES


«Nos Confins do Tempo» reúne um conjunto de textos sobre vários temas. São memórias, evocações da mocidade, relatos de aventuras, descrições de paisagens, de costumes, de singularidades e de labirintos da vida real que emergem no discurso eloquente e na prosa escorreita de Franklim Fernandes. Os personagens, o velho pedinte, o estudante mandrião, os militares «embriagados e desordeiros», o professor obcecado por vergastas, «distribuindo bordoada», o autarca «vaidoso e presumido», o político dorminhoco, a raposa lá do sítio, aparecem caracterizados através do traço exagerado, próximo da caricatura. Mas o Autor, para lá da capacidade de reter a peripécia ou o caso picaresco, não deixa de revelar um narrador instintivo, que não oculta as emoções, deslumbrado com as tintas que cercam «Arzozelo, Minha Terra»: o «verde do mato e da carqueja pintalgados de amarelo rutilante».

Luís Dantas

domingo, maio 20, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br

FEIRAS NOVAS – 1826-2006

DE

AMÂNDIO SOUSA VIEIRA




Depois de «O Minho Pitoresco» de José Augusto Vieira, a bibliografia do Minho e de Ponte de Lima tem agora mais uma obra monumental: Feiras Novas - 1826-2006.

«Amândio de Sousa Vieira foi recolhendo, aqui e acolá,» como já disse noutro sítio, «essas flores roxas e amarelas para colorir e perfumar um dos temas mais atraentes da colectividade limiana»: as nossas festas. Um conjunto imenso de documentos proveniente dos arquivos municipais, das confrarias, da chancelaria régia, da literatura, da imprensa, das artes gráficas, pictóricas e fotográficas, vieram povoar esta obra. Todos esses documentos colocam em cena os homens da terra no espaço e no tempo com os seus sentimentos, as suas crenças, os seus modos de vida, os seus trajes, as suas discórdias, os seus lamentos, os seus dias de alegria, os seus sonhos.

Muito tempo depois, parece-nos escutar ainda a voz do rei, de Dom Pedro IV a fazer saber que os moradores da vila de Ponte de Lima pediam a concessão de três dias de feira anual (19,20,21 de Setembro) para se conservar o culto de Nossa Senhora das Dores. A graça foi concedida no dia de hoje, 5 de Maio, mas no ano já distante de 1826.

São estas fontes que nos encantam porque cativam o tempo longo, o tempo profundo de quase dois séculos e deixam as nossas gentes e as nossas festas na rua em bulício durante aqueles três dias de Setembro. Diante dos nossos olhos deslocam-se os carpinteiros com as tábuas às costas para montar as barracas, milhares de copinhos iluminam as ruas e a porta da Igreja, as tigelas de sebo deixam os seus «lumes» nos canteiros do jardim, nos muros das casas senhoriais e nos monumentos, escutam-se bandas de música e tambores, «tocatas de músicos da aldeia», «descantes e risadas», imagina-se o fogo do ar e preso, o baile mascarado, o baile da espadelada, o cortejo luminoso, a representação teatral, espectáculos de «bailarinas espanholas», a feira do gado, a espera dos toiros e as touradas, o ciclismo, as corridas de automóveis, os jogos de futebol entre o Lusitano Futebol Clube e o Sport Club Vianense, o cinematógrafo popular, o pimpampum e as quermesses, a roda dos cavalinhos e o circo, os gigantones e os cabeçudos, os Zés pereiras, a «missa cantada acompanhada a instrumental» e a procissão. Nestas transposições de memórias, vê-se o povo a encher o areal e o passeio, as «moças, em mangas, coletes vistosos bordados a retrós», os «rapazes, jaqueta ao ombro, chapéu derrubado, ramo de alfádega atrás da orelha» e os «rapagões (…) experimentando as cornetas de barro». Também nos chegam momentos de alguma tristeza: a «chuva torrencial não nos deixou um momento» diz António Feijó numa carta enviada a Luís de Magalhães, seu grande amigo. Nesse ano de 1909,lá está o seu (e o nosso) desalento: «não houve feira, nem fogo, nem iluminações.»

Anos após ano, mil e um quadros das nossas festas foram evocados pela sensibilidade dos nossos prosadores: António Ferreira, Rodrigo Veloso, João Gomes D’Abreu, Miguel de Lemos, Delfim Guimarães, D. João de Castro, José Castilho, Eduardo de Castro e Sousa, Carlos Passos, José Velho Dantas, Conde d’Aurora, o António e a Maria Manuela Couto Viana, Luís Forjaz Trigueiros, António Amorim, Augusto de Castro e Sousa, José Crespo, Francisco Sampaio, Daniel Campelo, José Rosa Araújo, Padre Manuel Dias, Cláudio Lima, Carlindo Vieira, Adelino Tito de Morais, Severino Costa, Franclim Sousa, Amândio Sousa Dantas, José Carlos Magalhães Loureiro, João Barros, Alberto do Vale Loureiro, Faria de Morais, César Lima, José António Cunha, João Carlos Gonçalves, Rodrigo Melo, Maria João Vieira, D. Carlos Martins Pinheiro, Rosário Sá Coutinho e muitos jornalistas anónimos do Comércio do Lima, Estrela do Lima, Echo do Lima, Democracia do Lima, O Lethes, Rio Lima, Cardeal Saraiva, Jornal do Minho, A Semana, Correio do Norte, Vida Nova, A Voz Académica, Povo do Lima, Alto Minho. Entrevistados por César Lima, Aníbal Rocha e Abel Braga deixaram aqui também as suas vivências. Para juntar todo o nosso património cultural vieram também os poetas, a lírica limiana de António Feijó, Pereira da Cunha, Teófilo Carneiro, António Vieira Lisboa, Victor de Castilho, João Marcos, Maria Cândida Brandão, Cláudio Lima, Amândio de Sousa Dantas, Fátima Meireles, José Vieira, Carlos Lima Magalhães, Casimiro Pereira Alves. E por último, os vocabulários significantes da pintura do Américo e do Ovídio Carneiro, da Madalena Vieira Martins e das fotografias do Conde d’Aurora, do Engenheiro João D’Abreu Lima, do José Pereira Marinho, do José Dantas, do Professor José Manuel Silva e do Amândio de Sousa Vieira. E é ele, o Amândio, a lembrar aqui que fotho, em grego, quer dizer luz na nossa língua. A luz mágica das suas fotografias, a luz mágica dos afectos que deixou a palpitar nesta obra, a luz mágica destas imagens…

Luís Dantas

sexta-feira, maio 18, 2007


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CLÁUDIO LIMA:

OS LUGARES DA POESIA


Cláudio Lima acaba de editar a sua segunda obra em verso: Itinerarium. O poeta percorre neste livro os caminhos de uma viagem circular à procura da pureza inicial da palavra. Exprime em vários momentos o desencanto de um tempo concreto ( «a grande melancolia/ de não haver poesia/ até ao fim”) para depois se evadir num universo poético de outras dimensões. Vive e vibra com a sonoridade dos espaços mágicos: “antes da palavra, o sopro/ música singular, fonema/ errático, pulsar de signo/ hibernado”. Porque, afinal, no rumor da água, no canto das aves, nas vozes dos animais, no sibilar do vento, na colocação dos frutos, no crepitar do fogo, nos primeiros objectos e no espanto de todas as coisas está o segredo da palavra. Todo esse espanto significa a passagem para a festa da comunicação:

“ no tempo em que os homens falavam

as palavras eram nítidas

e vivas

eram palpáveis como coisas

e dóceis

e doces

no tempo em que os homens falavam

as palavras

como coisas:

o arco a funda

o fogo

o hálito lavado do amor

o baptismo imediato do espanto

a pergunta

sem os dígitos banais do telefone

no tempo em que os homens falavam

até os hiatos de silêncio

eram mais papoilas que metáforas”.

Assim emergem pelo conhecimento histórico e pelo ânimo interior do poeta os lugares primitivos e encantatórios da construção mágica da linguagem.

Da interpenetração do homem que escreve no “lento/ (...) ofício da mão» com esses lugares da poesia, a palavra é reinventada e chega até nós num “rumor/de antiquíssimos pastores/ soletrando em flauta/ os meridianos fonemas/ da saudade”.


Luís Dantas


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Amélia Aguiar Andrade
Um Espaço Urbano Medieval:

PONTE DE LIMA


UMA VIAGEM FASCINANTE

ATRAVÉS DE UMA VILA MEDIEVAL



Na tarde em que nos encontramos, na Universidade Nova de Lisboa, a historiadora tem no olhar a luz que se espalha pelos recantos da vila. São recordações da descoberta de "um espaço urbano (que) tinha escapado à descaracterização brutal que atingiu tantos outros núcleos urbanos da região". Frequentava então, no ano lectivo de 1981-82, o curso de mestrado em História Medieval da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. "Do curriculum então em vigor", diz ela, "fazia parte um seminário sobre "cidades medievais portuguesas orientado pelo Professor Doutor A.H. Oliveira Marques, no qual se pedia a cada aluno que escolhesse um núcleo urbano para investigar durante os dois anos que o seminário durava. Para alguém que crescera e sempre vivera no Entre Douro e Minho tornou-se óbvia a preferência por uma vila ou cidade aí situada. E Ponte de Lima parecia ser a escolha certa. " E foi. Feita a opção, a maior parte do seu tempo foi vivida na aventura da descoberta de documentos, de "tudo o que, na herança subsistente do passado, pode ser interpretado, como um índice revelador de qualquer coisa sobre a presença, a actividade, os sentimentos e a mentalidade do homem de outrora". "Tinha conhecimento, através de um inventário de meados do século, da existência de "documentação prometedora" nos nossos arquivos. E the last but not the least (1), havia a certeza de ter encontrado um objecto de pesquisa que nunca deixaria de me surpreender com a sua beleza. " Mas eram necessárias outras buscas: "os fundos documentais conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo foram pacientemente percorridos, em busca de documentos que, directa ou indirectamente, se relacionassem com Ponte de Lima." A partir daí, com os seus materiais, foi reconstituindo a paisagem, o espaço urbano e o movimento das «gentes limianas". E é precisamente nesta reconstituição que ressalta o luminoso e admirável talento da historiadora. Depois de percorrermos a sua obra - uma das obras-primas da historiografia limiana! - sentimos o palpitar de outros espaços, de outras ruas e de outras vidas.
De facto, a torrente avassaladora da escrita, que corre num rumor de alegria, arrasta-nos para tempos e espaços até então ocultos. "Espaços intensamente humanizados pontilhavam-se de casas, eiras, adegas e currais e até atafonas". Os ritmos de trabalho aparecem para ligar os homens à história e à comunidade: "tanto se ia à rua das Pereiras para fazer uma pública-forma na casa do tabelião Lourenço Afonso como a um ourives na rua de Braga; remendava-se a roupa velha na rua do Souto, no jubileiro Gonçalo Anes enquanto os serviços de um almocreve se podiam requisitar a Lourenço Esteves morador na rua da Fraria. " Mas as surpresas não acabam aqui. São infinitas. Um exemplo, apenas: se hoje nos deslocarmos à antiga venda do Xico Pessegueiro para beber uma tigela de vinho, não é possível fazê-lo sem evocar com um olhar novo a velha rua da Ribeira com as suas peixeiras. Eu vou lá, ou à antiga rua dos Mercadores, saudar a Amélia. A Amélia Aguiar Andrade, e o seu livro: uma obra para ser lida, amada e recriada por professores de História e alunos das nossas escolas.

Luís Dantas

(1) «o último, mas não o menos importante».

quinta-feira, maio 17, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br

CÂNDIDO MONTEIRO

ÁGUAS DE REGA E LIMA,
SEU APROVEITAMENTO E IMPLICÂNCIAS











Os conflitos domésticos relacionados com as águas de rega não são velhos. Nos tempos medievais, as terras não estavam tão divididas como estão hoje. As grandes extensões, como lugares e aldeias inteiras, pertenciam ao rei (os reguengos, os aforamentos), nobres, cavaleiros e ao clero (os coutos, as imensas áreas conventuais). Nessa época, vivia-se com muitos condicionalismos sociais: «cultivar a terra e alimentar os animais é para o vilão (o antepassado dos nossos camponeses) a batalha. Porque os cavaleiros e o clero vivem do que eles trabalham.
O vilão trabalha muito e sofre: semeia o trigo, o centeio, grada a aveia, ceifa o prado, tosquia a lã, faz as cercas, levanta paliçadas, cava os viveiros nos rios, cumpre corveias, sofre as pilhagens e paga cem direitos.
Nunca comerá bom pão.
Se tem um bom pato ou franga, ou bolo, ou farinha branca, destina-se aos seus senhores.
E se tem vinho da sua vinha, o senhor engana-o com louvores ou olhares, de tal maneira que o seduz e lhe fica com ele.
O camponês nunca prova um bom bocado, nem de ave nem de caça. Se tem pão escuro, leite ou manteiga, já fica contente.» Mas vive tranquilo com a ajuda da filharada. E quando rega as terras não sofre ameaças dos vizinhos porque até a água, o ribeiro e a nascente são do senhor.
A divisão das propriedades no nosso reino, ao contrário dos países do norte, fez-se tarde. Foi preciso acabar com o morgadio, com esse conjunto de bens vinculados, indivisíveis e inalienáveis que, por morte do possuidor, passava apenas para o filho mais velho. Quando lido com este conceito de «morgadio», chegam-me sempre as recordações das primeiras leituras, da descoberta dos primeiros livros. Entre eles, a Morgadinha dos Canaviais de Júlio Diniz.
Vejo então um fidalgo de Lisboa a caminho da província. Vem a ares e mostra-se impaciente para chegar ao destino. E por isso não cessa de interpelar o companheiro de jornada:
- Onde está a aldeia que dizias, homem?
- Daí já se vê disse o almocreve, correndo para alcançar o cavaleiro. Não vê V. S.a, além, além, aqueles pinheirais mansos?
- Vejo, sim.
- Pois já são da freguesia. Se fosse mais claro havia de avistar a casa do guarda. E a tapada dos Bajudos, que pertence à Morgadinha dos Canaviais.»
Descem o vale. O guia não se cala:
« - Estes campos e lameiros ia dizendo são da morgadinha dos Canaviais; andam arrendados a um compadre meu.»
Prosseguem a caminhada com a bênção da música da água e o gemer das rodas das azenhas.
«- São os açudes do Casal dizia o almocreve, berrando para se fazer ouvir através do estrondo da torrente. Pertencem à morgadinha dos Canaviais.» E ainda faltava um bom bocado para chegar à quinta dos Canaviais. Em tais terras não podem emergir disputas de água, como muito bem se pode concluir. Só depois do último quartel do século XIX é que esta situação muda. As propriedades começam a passar para todos os filhos. A divisão das grandes propriedades está em curso e chega aos nossos dias com as atribulações que são conhecidas. Foram necessários corpos de especialistas para gerir as contendas. E é neste contexto que emerge o nosso autor, o Cândido Monteiro, esse grande perito na matéria de divisão de águas. Um homem respeitado no nosso mundo rural pelos conceitos de «justiça» que estão ligados à sua sensibilidade.
Esta obra reflecte apenas uma pequena amostra do seu longo trabalho, do seu contacto estreito com as nossas aldeias. Podemos imaginar a sua ida ao campo, ao eido, à leira e observar ali as nascentes, calcular o caudal de água à hora, ao minuto, registar as variantes que ocorrem nas várias estações do ano, medir as terras, considerar as dificuldades de rega, respeitar as velhas práticas de irrigação e propor depois a repartição das águas de rega para serem sancionadas pelas partes e pela justiça. Trata-se de um documento sociológico de múltiplos significados que coloca em cena um tema fundamental da vida quotidiana da nossa gente do campo: a rega, que «é não só um facto social, uma medida que envolve os seus agentes numa mesma actividade estival, fazendo com que mantenham regularmente entre si e com os outros diversas relações de troca, mas também um facto social total, uma vez que atinge todos os domínios da vida social: o jurídico, o económico, o religioso, o parentesco, a ética e as representações simbólicas.»
Este trabalho é um importante contributo para estudos mais profundos nas áreas da sociologia e da antropologia.
Por aqui passa muita da sua experiência, o seu testemunho, modos de viver e algumas estórias entre muitas outras que ele guarda e devia contar numa outra hora.


segunda-feira, maio 14, 2007


luisdantas1113@yahoo.com.br

A FEIRA DE PONTE
Conde d'Aurora

Arquivo de Ponte de Lima, 2005


O sentimento do passado não nos larga, faz parte integrante do homem solitário ou inserido no grupo. As mil e uma experiên­cias vividas directamente ou difundidas pelo costume de cada época animam intensamente a nossa memória social num pro­cesso sublime de fruição e de estremecimento. Mas ao passar dos séculos, desde as culturas orais até aos nossos dias, fi­caram para trás múltiplas representações de uma comunida­de. O historiador de ofício tem a possibilidade de reconstruir quadros remotos e esquecidos, mas também reconhece que muitos outros desapareceram definitivamente. Esta reflexão serve para enaltecer a luz do documento e o gé­nio criador do homem que o transmitiu no seu tempo a outros tempos. E é assim, no meio de um grande regozijo, que esta­mos aqui a evocar com encanto um dos magníficos textos literários de um escritor nato da escola romântica: o Conde d'Aurora. A Feira de Ponte propicia-nos as delícias de uma leitura do começo ao fim. É um registo vivo e flagrante que ilu­mina a cultura da nossa região materna. Um apelo ao olhar para reter a paisagem, a cor, o som e o movimento das imagens. Uma partilha com outros: Oh! Se puderes, forasteiro, vem a Ponte de Lima num dia de mercado. E venha então o leitor-visitante, forasteiro ou não, nesta manhã de sol, desco­brir esta feira de há décadas, diferente das que se realizam hoje às segundas, de quinze em quinze dias (às outras, chama-lhes o povo solteiras).

Luís Dantas

domingo, maio 06, 2007


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ANTÓNIO VIEIRA LISBOA





Poetas assim só aparecem de séculos em séculos e na abundante poesia lírica portuguesa não chegam a contar‑se pelos dedos das duas mãos.

Jaime Brasil

Um lugar dos melhores entre os melhores poetas modernos.

Rebelo de Bettencourt

A marca incontestável dum artista.

Raúl Leal


António Vieira Lisboa publica a maior parte dos seus livros na década de 40 do século XX. Nesse mesmo período encontram‑se a compor a sua experiência criativa outros poetas: Alberto de Serpa, Vitorino Nemésio, Francisco Bugalho, Fausto José, Pedro Homem de Melo, Mário Dionísio, Álvaro Feijó, Joaquim Namorado, Sidónio Muralha, Augusto dos Santos Abranches, Natércia Freire, Irene Lisboa, Rui Cinatti, Tomaz Kim, José Blanc de Portugal,José Régio, António de Navarro e muitos outros. Os versos movem‑se através das tertúlias de café, dos jornais, dos livros e das revistas que circulam do norte ao sul do país. São múltiplas as tendências e as estéticas em confrontos intermináveis, desde o modernismo ao neo‑realismo. O Poeta de Versos Estranhos (1940) ou de Poemas de Amor e Dúvida (1941) está afastado de todos esses círculos. Talvez se aproxime do grupo ligado aos Cadernos de Poesia(1940), ao seu manifesto: «Destinam‑se estes cadernos a arquivar a actividade da poesia actual sem dependências de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas. A poesia é só uma!»(1)

António Viera Lisboa constrói suas próprias normas no encalço de uma poética personalíssima. Toda a sua arte nasce de uma chama interior, de uma sensação de vazio, de desamparo, de insatisfação. A escrita é o reinventar da vida em águas mais mansas, a busca da quietude plena do espírito, o desfazer do caos. E é quase sempre a mulher que emerge nos versos, nas estrofes: «A terra é seca, é árida, é ingrata/sem ter o olhar de uma mulher./Só a mulher à terra prende e ata/ com invisível nó que o Amor sugere.» (2)De outro modo, a existência não faz sentido. «Tudo o que sinto ou sonho e me desvaira,/ a cor, o som, o aroma da paisagem/ que eu vejo longe porque d’alto paira/ sinto puríssimos em certa imagem...// A imagem d’Essa doce rapariga/alegre, sã e fresca como a aragem/ do Amor que a face ainda me fustiga/ para que eu viva a Vida com coragem.» (3) A mesma obsessão quando a paisagem se desdobra diante dos seus olhos: «Ao longo desse langoroso Lima/ o pensamento em que me alongo pende/ para um barco à vela rio acima, / um barco à vela que na água esplende.// E a vela arfando fresca ao leve vento/ lembra‑me, branca, a sua bela blusa,/ a blusa dela justa – o meu tormento - / com que ficava, olhando-A, tão confusa. // O barco à vela, majestosamente,/ que ao longo desse rio sobe além/ parece‑me Ela a aproximar‑se, rente,/ que em Seu andar inconfundível vem.» (4) Esta imagem não é mais do que o vibrar do sonho na palavra, na música, no ritmo. Uma aspiração profunda realizada no momento encantado de criação que é ao mesmo tempo vida e arte, realidade e fantasia, serenidade e arrebatamento, finito e infinito. Foi o modo que o poeta achou para «Viver a Vida toda Amor/só ao sabor/ do Coração.» (5) Mas a paixão sublime ficou apenas na sua lírica amorosa e sensual, na mulher que tão depressa aparece como desaparece do seu caminho. E é isso que se pode constatar no poema Na Cidade: «Essa de que nem sei o nome/ segui-A ao longo da Cidade plena/ de gente que ia e vinha lesta...// Depois perdi‑A/ na multidão...// Mas para sempre me deixou em cada artéria/ do Coração/ essa lembrança duma moça esguia/ frágil e séria/ que um dia vi com emoção.// Segui o meu destino...// Por mais que ande,/ não tornarei a ver seu Corpo fino...// A Cidade é tão grande!...» (6) Num outro exercício muito semelhante, A uma Desconhecida, regista as mesmas comoções vertiginosas: «Esse olhar íntimo mas fugitivo/ duma Desconhecida penetrou‑me/ de tal maneira a minha Alma ao vivo/ que pensativo, triste até, deixou‑me.// Esse olhar doce, súplice estragou‑me,/ assim tão momentâneo e tão preciso,/ a tarde toda... O meu prazer levou‑me.// E eu vendo‑A, estático, indeciso,/ fiquei‑me a olhá-La, alheio e só, perplexo...// !¿ Porque não segui eu essa mulher/ se ainda agora o Seu olhar me fere?!// ¿ Era o Amor que me passou à beira?/ ¿ A imagem d’Ele em pálido reflexo/ neste bulício da cidade inteira/ quase sem tempo em seu viver sem nexo?» (7)

António Vieira Lisboa foi o poeta das emoções, o cantor do Amor e da Mulher, mas foi também o cantor do Lima: «Sete vezes o Rio há‑de encher/ e subir ao «Passeio» da vila./ Cada vez há‑de ser Lua Cheia/ que, ao descer o «Passeio», vigila.// Doze meses é quanto medeia/ cada ciclo dos tais que hão‑de ser./ Sete vezes será Lua Cheia./Sete cheias o Rio há‑de ter.// Sete vezes, não mais, nunca menos/ p’ra que o ano nos venha folgado.../ P’ra que haja bons milhos, bons fenos/ - a fartura da gente e do gado.» (8)

Luís Dantas

NOTAS

(1) João Gaspar Simões, Itinerário Histórico da Poesia Portuguesa, Biblioteca Arcádia de Bolso, Lisboa, pg. 372

(2)António Vieira Lisboa, Chão de Amor, Editorial Nós, Braga, 1944, pg. 5

(3)António Vieira Lisboa, Chão de Amor, Editorial Nós, Braga, 1944, pg.11

(4)António Vieira Lisboa, Ao Longo do Rio Azul, Edição de Autor, Ponte de Lima, 1949, pg. 12

(5)António Vieira Lisboa, Versos Estranhos, Livraria Portugália, Lisboa, 1940, pg.8

(6)António Vieira Lisboa, Versos Estranhos, Livraria Portugália, Lisboa, 1940, pp.44-45

(7)António Vieira Lisboa, Mulheres, Livraria Bertrand, Lisboa, 1942, pg. 45

(8) António Vieira Lisboa, Ao Longo do Rio Azul, Edição de Autor, Ponte de Lima, 1949, pg. 50

luisdantas1113@yahoo.com.br

NORTON DE MATOS
VERSUS
EGAS MONIZ

UM DUELO HISTÓRICO

POR JOÃO DE ARAÚJO PIMENTA



O livro «Norton de Matos Versus Egas Moniz - um Duelo Histórico» vem evocar um quadro paradoxal das relações dos homens no tempo. O autor, que pertence a uma geração de médicos que trouxe renovação à prática da medicina, fez uma pesquisa fecunda e construiu uma síntese admirável sobre o duelo , a vida e a morte, as controvérsias, os códigos, os rituais, as armas, o elenco de apoio. « A acompanhar os padrinhos havia a indispensável equipa médica não só para tratar os possíveis feridos, mas também para emitir parecer acerca da importância dos ferimentos na prossecução ou não da luta, e ainda para a desinfecção das espadas, tarefa realizada antes do prélio e sempre que ao decorrer destes houvesse algum toque fortuito de arma no solo. A prática corrente desta desinfecção talvez explique a raridade de referências na nossa literatura médica a casos de tétano nos duelistas, se levarmos em conta o risco que estes corriam de, com os ferimentos, contraírem esta infecção grave».(1)

E estamos assim colocados em face do evento aqui tratado na conjuntura agitada da época: « o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, a Revolução de 5 de Outubro de 1910, as lides das sociedades secretas, os surtos de greves, sedições e tumultos acentuaram esse alvoroço, em especial nas classes política e militar da capital. A aumentar este desvario surgiu uma onda de duelos no seio destas mesmas classes cujos membros, envolvidos numa notória impunidade, procuravam usar esta forma de combate para lavar as mal chamadas questões de honra.» (2)

Egas Moniz fez nessa ocasião um discurso na Câmara dos Deputados sobre a questão de Ambaca. «Após citar o meu nome», disse Norton de Matos, empregou expressões que me ofendem na minha honra e dignidade.» (3)Como não houve desagravo, os dois vultos da nossa história cruzaram armas para matar ou morrer. Mas o desfecho não foi trágico: ambos ficaram feridos. Mais grave foi a lesão de Norton de Matos e por isso, na opinião dos médicos, «o duelo não podia prosseguir». (4)

João de Araújo Pimenta deixou nesta obra um registo vibrante e pormenorizado que é imprescindível para a outra História: a das Mentalidades.

Luís Dantas

(1) João de Araújo Pimenta, obra citada, pp. 17-18

(2) João de Araújo Pimenta, obra citada, pg. 7

(3) João de Araújo Pimenta, obra citada, pg. 31

(4) João de Araújo Pimenta, obra citada, pg. 43

quinta-feira, agosto 24, 2006

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Título: A Salvação de Portugal
Autor: José Manuel Pinto Pereira
Editora: Prefácio
Capa: João Nunes

José Manuel Pinto Pereira começa por reflectir sobre a transição da sociedade agrícola para a sociedade industrial. Regista as transformações nas relações pessoais e o emergir de um «individualismo desenfreado.» Olha para os países (com os seus governantes) mal preparados, sem regras, sem ética, muito pouco atentos aos grandes flagelos do momento, fugindo às suas responsabilidades. «O ensino degrada‑se? A criminalidade dispara? A droga propaga‑se? A corrupção instala‑se?... De uma coisa temos antecipadamente a certeza: a culpa não é de certeza absoluta, nem do aluno, nem do professor, nem do delinquente, nem do consumidor, nem do corruptor… O problema, como é de bom tom dizer‑se, é mais vasto… E a conclusão obrigatória e antecipada de todos os inquéritos e relatórios é sempre a mesma: a culpa é da Sociedade ou melhor, não é de ninguém.» Esta é a grande verdade que atravessa constantemente a sociedade portuguesa. Ainda há bem pouco tempo arderam muitos hectares nas matas nacionais, nos parques naturais, desapareceram terrenos de cultivo, casas e utensílios agrícolas, morreram homens e animais. Tem sido assim nos últimos anos. Todos sabemos que a classe política instalada no aparelho de estado não sabe intervir: deixa tudo ao abandono e continua a não mandar fazer a prevenção, a limpeza, a vigilância, o patrulhamento, a abertura de acessos, a criação de fontanários ou bocas de água, a intervenção rápida. Mas desculpam‑se com os tais inquéritos e culpam os incendiários. Se existisse vigilância, comunicações, patrulhamento, os incendiários não chegavam perto das matas ou dos parques! É por isso, para lá de muitos outros factores, que «a confiança dos cidadãos nas instituições políticas tem vindo a diminuir, de forma lenta mas segura.» A gente ligada à política está hoje desfigurada, caiu no ridículo. É gente que não brilha, que não inspira respeito e que representa «um poder político demissionista e complacente que contorna os problemas: ou ignorando‑os, ou criando outros para fazer esquecer os primeiros, ou dialogando sobre eles mas em atitude passiva, tolerante e fatalista.» Muito ainda para ler nesta obra que ergue uma voz lúcida, apaixonada, inteligente. E é necessário fazer coro com ela contra o abaixamento nacional. O país precisa de uma «nova geração de gente» com regras e valores.
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Título: Plenitude
Autor: Maria José Lascas Fernandes
Edição: autor
Prefácio: Manuela Rosa

As palavras reinventam a luz, as grandes claridades das paisagens, os perfumes dos montes: «as mulheres branquearam o xisto/ com cal e rendas/ungido com alecrim e incenso.» São quadros poéticos como este que emergem no verso de Maria José Lascas Fernandes. Todo o processo criativo desta obra parece deslizar em busca das imagens do Eu e captar um outro tempo mais rumoroso, mais límpido. E é por isso que por vezes descobrimos uma criança a sonhar de noite («sonhava que abria os braços no alto da eira e voava ») e a aprender de dia «nos livros as palavras que voam e cantam como pássaros», a fazer «a ronda das pereiras no restolho». Num outro belo retrato vê‑se a recordar a Amoreira que o Pai cortou pela raiz. «Acalentei a esperança», diz ela, «de que iria renascer, cobrir‑se de folhas e andorinhas.» O tempo passou. A menina cresceu. Bem se vê que nunca deixou de ser poeta. E encontrou um modo mágico de puxar os dias dos círculos esplendorosos para a sua beira. «Nesta Primavera plantei uma Amoreira, porque o vazio me acompanha.
O lugar da outra não foi preenchido, ali vive o seu espírito e o melhor de mim».
Estamos diante de uma grande poetisa.

terça-feira, março 28, 2006

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João-Maria Nabais
Palhais

Edições Ceres e Junta de Freguesia de Palhais, Lisboa, 2002

João Nabais publica agora o seu décimo primeiro livro de poemas. Poeta de uma sensibilidade vibrante, produz uma poesia de forte expressão lírica, iluminada por uma linguagem rumorosa, rente à luz, soberba em imagens.
Na construção dos seus poemas, marcados pelo ritmo solto e pelos versos brancos, incorpora temáticas da vida ribeirinha, instantâneos do quotidiano, momentos lúdicos das crianças, crepúsculos à beira mar, mágicas amorosas ou paixões corporais, ideias sobre o acto da escrita: «escrevo para me libertar».
As palavras movem‑se nas sombras ou nos contrastes das cores, atravessam o «orvalho» ou a «noite densa» para captar a beleza primitiva das coisas num processo criativo de estilização: o «rio adormecido», o «mar de lua-cheia», a «música d'água das cigarras», as «aves», as «gaivotas em terra», o «barco/perdido na maresia», a «vela rasgada», as «chuvas brancas», a «praia», a «maré», a «névoa e cinza».
E com tudo isso depois, nas linhas do texto, exprime a sua percepção poética e o seu estilo plástico. Nesses trilhos percorridos, vai assim ficando a luz na poesia, o lirismo nas fontes íntimas, o feitiço na palavra, a melodia no ritmo interior e o êxtase no pensamento imaginário ou no «sabor impossível da terra antiga».


quinta-feira, março 02, 2006

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ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Câmara Municipal de Viana do Castelo, Viana do Castelo, 1995

Este texto poético reflecte um exercício de memória fecundante: rein­venta a vida de heróis que se movimentam num espaço e num tempo de vários deslumbramentos. E foi a saudade — «a saudade cheia de emoção «— a dar voz e ânimo ao poeta para realizar um itinerário de reencontros intensamente afectivos. Da evocação genealógica, e numa síntese exemplar, emergem os retratos romanceados em verso que cons­tituem o «álbum de família».
António Manuel Couto Viana transpõe para uma poesia de raiz lírica a tragicidade do romantismo camiliano e a observação minu­ciosa do realismo queiroziano. Para avaliarmos essa emocionalidade bastam alguns versos de um poema de renovação rítmica que põe em cena os «antigos cavalheiros da família»: «surgem todos / De um romântico e imenso guarda-fatos, / Cheirando a naftalina os trajos e os modos, /A caminho do álbum de retratos.» O vestuário e os adornos estão descritos com detalhe: «Sobrecasacas, chapéus altos e, na mão, / Bengala de castão de prata e de marfim. / Um deles, par do reino, ostenta a Conceição /E, no oiro da farda, o mimo do espadim / (Tinha berço e brasão nas terras de Aboím).» As tintas dos esboços deslizam depois para tonalidades sombrias: «um, em tempo de terror, / Teve morte horrorosa, / Com um tiro anarquista, no enterro do escritor, / Conde de Sabugosa.» E, na configuração das tensões amorosas, «outro enlou­queceu pela feitiçaria /Da noiva que o amou e por bem lhe fez mal.» Não é apenas este poema que nos permite constatar a coexistência de temáticas ou de processos literários explícitos nas obras dos dois maiores escritores portugueses do século XIX. Atente-se em outros versos d'«O Avô Suicida»: «O meu Avô paterno era toda a cidade: /A indústria e o comércio (o vapor e a balança); / Bancos, vinhos, Seguros, Casas de Caridade.. . /E agente consular honorário da França. //Na Havaneza da Praça, / Reunia o escol político local. / Iam ali Junqueiro e o Tio Manuel Graça /Escrever versos, palestrar, ler o jornal», ou ainda em «As Mãos de Minha Mãe»: «Meu Pai, jovem alferes, ia a cavalo / Fazer-lhe pé de alferes à quinta; à Meadela. / E ela começou a amá-lo e a esperá-lo / Debruçada à janela.»
São autênticos rimances na multiplicidade dos dois rumos. Por isso (pelo que exprime do seu poder criativo) se vê uma vez mais o invulgar talento poético de António Manuel Couto Viana. Mas a arte poética tem aqui um outro valor, que é admirável: o testemunho histó­rico. Ao ritmo da sua pulsação interior, o poeta revolve o tempo lento do círculo familiar desde a bisavó a inventar biscoito (o biscoito de Viana) às «antigas senhoras da família» inclinadas sobre as artes de distracção (os bordados, os doces, os arranjos florais) ou concentradas na «leitura, à luz do candeeiro», desde o pai a bater-se fervorosamente pela causa monárquica ao primo Zé Antunes a viver o sonho de repu­blicano nas barricadas do «fatal 31 de Janeiro». Mas também se escutam as serenatas e as valsas da Tia Rosalina «pra alegrar as nossas festas» e avivar nas nossas memórias a diversidade da vida profunda.

quarta-feira, junho 08, 2005

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AÇORIANIDADE E VIDAS MARGINAIS NO ROMANCE DE ÁLAMO OLIVEIRA: «PÁTIO D'ALFÂNDEGA/MEIA NOITE»
O que nos deslumbra neste romance são as perspectivas infinitas sobre o espaço (os espaços) e a vida. 0 "Pátio d'Alfândega com o seu banco verde" (centro do mundo concreto e imagético de Álamo 0liveira) representa o espaço civilizacional, o lugar privilegiado dos encontros, dos repousos breves, dos silêncios, das cumplicidades, dos beijos furtivos, dos amores ousados, da invenção vocabular, do metaforismo, dos sonhos desfeitos, dos choros musicais, da poesia errabunda, da rebeldia solitária, das coisas memoráveis. A partir dessa zona, quase sempre, o narrador dilata o campo visual em continuidades perceptivas, e reacende outros espaços (espaços encarnados, espaços da açorianidade) num diálogo incessante."Lá está o Monte do Brasil afocinhado na água em repouso eterno. Do outro lado, o cais parece mais pequeno, fantasmado sobre a luz de néon. Os barcos, acostados de fresco, estão quietos e moles. Era um deserto com objectos e alguns sons de surdina. Um deserto minúsculo, escuro. Também o Pátio d'Alfândega, deserto."
A circularidade dessas viagens dos sentidos não é casual. Muito intencionalmente, o acto de olhar e de ouvir fixa-se no ponto de partida, no "Pátio d'Alfândega". E eis de novo esse movimento perpétuo, essa circularidade conceptual: "À meia-noite, o paquete na partida. Era um pequeno arraial de luzes que se ia sumindo no espaço escuro. Todos olhavam para aquele escorregar vagaroso do navio sobre as águas. E o coração saltava lá para dentro, no desejo imenso de partir, de ir a outras terras, a outras cidades, para conhecer as grandes liberdades, as grandes prisões, as multidões a vaguear nos grandes espaços, o testemunhar a redondeza do mundo. Nesses minutos em que o navio se perdia na escuridão, todos os sonhos eram vividos no cais sob a grandeza das realidades. Naquele momento, tudo era possível - ser rei absoluto do coração. Então, na ilha, nada era mais triste do que ver aquele navio a sumir-se sobre as águas. E tudo isto enquanto os empregados do Café Atlântico, sempre de casaca, luvas e papilhão, empilhavam as mesas e as cadeiras. Só, então as pessoas desapareciam pela rua Direita acima, de costas para o mar. Era então o funeral da vida. 0 Pátio d'Alfândega ficava vazio".
As imagens possuem o simbolismo e as vibrações da vivência insular. Há algo de mágico nesta escrita em círculos: ela revolve a alma das personagens que emergem do universo da marginalidade. O Poeta Porreirinho, a Rosa Cambadinha e o Patachão."Três. Dois deles mortos ". A morte do poeta já se esperava. Andava com cores. Não comia. Bebia." A da Rosa, fora o epílogo de uma paixão: " uma homenagem ao poeta." Ficou o Patachão, "herdeiro de um espólio cujo autor fizera gala em o deixar no mais belo estado de confusão."
Arrebatado por uma amizade esplendorosa ( "Poeta Porreirinho lhe chamei quando falei com ele pela primeira vez") tenta organizar pacientemente as folhas do romance "Pátio d'Alfândega/Meia Noite". E para possuir o sonho que o texto exprime ( a edição da obra, a celebridade do poeta), vive uma aventura patética para sensibilizar a intelectualidade instalada na cidade, nas instituições culturais, nas editoras. Mas é um esforço inglório. E decide então, num momento de cólera e sarcasmo, publicar o romance no fogo.
A sensação com que depois ficamos é a de uma dúvida atroz: existia ou não génio literário nos manuscritos do Poeta Porreirinho? Os fragmentos do romance, que constituem uma experiência de intertextualidade bem sucedida, conduzem-nos para uma leitura enigmática e para o fascinante acto de ler...

Luís Dantas

Título: Pátio d'Alfândega/Meia Noite
Autor: Álamo Oliveira
Capa: Estudios Vega, com base numa fotografia do Arq. Ângelo Regojo

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

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«HÁ UMA ETERNA LIBERDADE» NA POESIA DE AMÂNDIO SOUSA DANTAS

PAULO BRITO E ABREU

Ao encetarmos o exórdio, abalançamo-nos ao leme e à letra de Amândio Sousa Dantas. E ponderamos, destarte: certamente, o homem que cultiva as artes liberais, com a palavra e o palato, há-de ser, tem de ser, merece ser, o paladino e campeão da Liberdade. Mas perguntará, agora, o denodado e estreme leitor: qual a substância, ou melhor, qual o fundamento e a raiz, dessa mesma Liberdade?
A sinalização, ou, por vocábulos amáveis, o signo e o sinal, aparecem, lautos e leves, no primeiro poema. Sousa Dantas invoca o seu Verbo com a coragem do letrado, e no cor e na esperança dos grandes Poetas. Ao Logos pede ele: «Protege-nos dessa doença/ De animal domesticado», e mais adiante se coloca e desloca, afinal, «contra tudo o que definha na cidade».
Munidos já estamos de um certo viático para a nossa viagem. Contra tudo o que seja tecnocracia, diabolismo, e separatividade, ou seja, contra a lança do medo e «o muro de Berlim», Sousa Dantas vai erguendo uma pousada que com palavras se constrói… A linguagem é sempre urna liga, porque a língua dos Poetas é a casa do Ser. Não esqueçamos, porém, que de Amândio a vivenda foi feita «rente à idade e às primeiras flores», ou melhor, jamais olvidemos que, na mónada margem, o Amor é que nos leva «ao cume do universo». Queremos dizer que, entre outras coisas, e loisas longânimes, podemos assertar e estruturar, afinal, o nosso Amor como a nossa morada.
E aqui se ergue, em altitude, bem altivo e altaneiro, o símbolo da árvore. Ela é a madeira, ou melhor, a matéria-prima ou matriz, com que o mundo foi formado. Amândio Sousa Dantas a trata por «companheira» e nos informa que ela é o «amparo e guia do solitário»; quase estaríamos tentados a dizer que, para este Vate, Amor, casa, árvore e terra fazem parte do mesmo campo simbólico. Encaremos, dessarte, a Natura como aquilo que nasce e é nativo; encaremos, também, o nosso Amândio como o amado criador, a criação que se desvela de Alma dada com a criança. Ele mesmo nos confessa, no palato ou no palácio do Ser: «Assim escrevo como a criança que gatinha…»
E assim voltamos ao poema que citámos em primeiro lugar: o infante é seguramente o «bom selvagem» ou naïf e nanja e jamais o «animal domesticado» a que nos habituaram, na rotina, os nossos códigos e leis, isto é: ao sensabor e ramerraneiro da vida prosaica opõe-se o espanto e a admiração que, em todos os países e em todas as épocas, leva os homens e mulheres a amar, a versejar, a filosofar. Por isso especulamos na fímbria do Espírito, por isso a Poesia, como queria João Belo, é seguro sinal de espectáculo e marianismo… Talvez chegue o dia em que se descubra, afinal, que Amândio Sousa Dantas e seu irmão, Luís de Sousa Dantas, são devotos partidários da Deméter e da Ceres, ou melhor: quer madeiro a criação e o crianço e a cruz demandam crescimento. São as crianças, segundo o Poeta, que dão «às palavras as cores do poema»; e não será então o «liber», que ora temos entre mãos, um quadro liberal de inocência, alacridade?
Consideremos na frol, no conspecto e no aspecto: a capacidade efabulatória, nos meninos, é extraordinariamente impressionante e vivaz; não nos informa, na «Poética», Aristóteles, que o Poeta é mais efabulador que versificador? Quem diz fábula diz Mito, mentira, ilusão; quem ora fábula, interessa-se por Mito.
Quando Amândio Sousa Dantas, dessarte e na Arte, se manifesta ou dá a mão «contra tudo o que definha na cidade», nunca será de mais frisar que o homem da grande Lisboa é, de certa forma, um Poeta acorrentado. Já o dissemos, noutro sítio, e voltamos a afirmar: o ser humano pode viver, insistir e ex-sistir, sem computadores, comboios e locomotivas; não pode o humano ser, porém, viver sem Arte, sem Poesia, e sem a mítica, alegórica ciência. E atenta no preito, amigo leitor. Por um caso e um acaso objectivos e cordiais, o dia da Liberdade foi o dia para nós eleito e liberado para lavrarmos o elóquio. Falamos, como sabes, do 25 de Abril. Pois, para Amândio Sousa Dantas, como vais ver, a Liberdade ou liberalidade são talvez mais ecológicas e ônticas do que propriamente lógicas, ou liminarmente políticas. Talvez também a Poesia (e no poético pensamento incluímos a religião), talvez também a música e a mentira definam, sem fim, o homem como um ser deletreado e alegórico, como o ser que, ao voar ou vocalizar, já clama, na mente, pelo místico Verbo. Tal é a matriz e a substância, ou melhor, a radicalidade, de Amândio Sousa Dantas. Eis um Vate que, na terra, contempla a janela, a Saudade, as misteriosas e rosas «gotas de orvalho». E provável que essas gotas sejam orbes amorosos que pousam nas plantas. Como estrelas à espera que um profeta as interrogue… E se é missão, para o ser humano, se irmanar com o semelhante, é bem mister, para o mistério, cultivar a Via Láctea.

Lisboa, 25/4/2000

PAULO BRITO E ABREU

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

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PARA UMA RELEITURA DA POESIA DE JOÃO MARCOS

João Marcos fez a sua estreia literária em verso. Na edição de «Polifonia Singela» (1), o poeta viva as paixões da sua juventude em cânticos de despedida, de louvor à natureza, à alegria dos sentidos, aos heróis nacionais (poetas e navegadores) ou de exasperação quando se confronta com as chagas sociais do seu tempo.
Neste percurso de três anos (1937-1940) encontramos algumas afinidades com o lirisno e a temática da poesia cesariana. É o campo que os une numa mesma visão da paisagem rural pontuada de «madressilvas cheirosas» (2), de «rosas na roseira» (3), de azáfamas agrícolas, de «solos bravos, maninhos, / Que expulsam seus habitantes.» (4). «Desaumenta a aldeia, cresce um ermitério:/São tuberculosos para o cemitério, / São milhares de homens a fugir do lar» (5) porque em muitas «casas (…) não arde a lenha! – Casas apagadas, tristes vulcões de ais! – /Se é vazia a tulha, se não mói a azenha! / (Corpos descarnados são molhos de lenha…) E se a loja, perto, já não fia mais!» (6). Mas a emoção em torno dos dramas dos homens do campo é muito mais profunda e, Marcos. Com fios de realismo tece versos perduráveis de intensas vibrações humanas. Outros escritos em «Um Novo Mundo Perfeito» (1953) mostram as mesmas características nos registos da vida que borbulha nas ruas da cidade: «Bateram oito, nove horas, / Dez horas, onze da noite…/ Nas ruas, o proletário/ Vagueia a tremer de frio.» (7) Depois, (em «Colonizados») manifesta iguais preocupações: rememora nos acontecimentos políticos chilenos a «afronta/ à consciência universal» (8) – ou na «alma de engenho» o «negro exangue suando/ cantando um samba que chora.» (9)
Esta poesia resplandece por dentro dos sons, das luzes, das sombras, dos gritos, da vida. «Faz-nos participar numa possibilidade dessa mesma vida, que nós próprios, leitores, estamos vivendo, numa possibilidade essencial.
Na medida em que, ao ler, vibramos com essa essência humana iluminada e poetizada, vivemos a verdade; na medida em que vibramos com ela, única e simplesmente através da sentida percepção da forma verbal, vivemos a concordância da verdade com a beleza.» (10)
Numa análise mais detalhada seria possível aproximar as suas expressões literárias da «Escola Nova» ou do «Neo-Realismo». Existem, sem dúvida, temáticas e clarões instantâneos de sensibilidade muito semelhantes. O poeta combatente por «um novo mundo perfeito» não aflora directamente os movimentos sociais e as ideias filosóficas, mas deixa transparecer no tempo da sua criação literária algumas referências associadas aos conceitos de «liberdade» e «democracia». E parece ser exactamente nesta direcção que devemos tentar entender a poética exortativa da sua última obra («Manhãs de Abril») escrita e vivida no momento histórico em que «O corpo de Lisboa pulsa em festa, / o sangue regorgita em suas veias, / transborda, vai às vilas, às aldeias, e volta carregado de giesta.» (11) De giesta ou de renovada energia que corre como «Caudais que trazem vagas em cachão/ de enxadas e de moços a cantar, / de redes e canastras em vulcão, / impávidos dançando sobre o mar.» (12) Mas também de uma voz protestatária que transporta consigo o desassossego. «Agora que se perdeu o sol de Abril e voltam as nuvens aos molhos, / que as sombras se aproximam de uma noite sem lua, / volta a raiva a faiscar nos nossos olhos.» (13)

NOTAS

(1) Norte-Editora, Rio de Janeiro, 1946
(2) Verde, Cesário, O Livro de Cesário Verde, Minerva, Lisboa, pg.141
(3) Marcos, João, Polifonia Singela, Norte-Editora, Rio de Janeiro, 1946, pg.32
(4) Verde, Cesário, ob.cit., pg.142
(5) Marcos, João, Polifonia Singela, pg.21
(6) Marcos, João, Polifonia Singela, pg.21
(7) Marcos, João, Um Novo Mundo Perfeito, Edições Marânus, Porto, 1953, pg.140
(8) Marcos, João, Colonizados, pg.48
(9) Marcos, João, Colonizados, pg.12
(10) Pleiffer, Johannes, Introdução à Poesia, Publicações Europa-América, Lisboa, 1966, pg.92
(11) Marcos, João, Manhãs de Abril, pg.10
(12) Marcos, João, Manhãs de Abril, pp. 10-11
(13) Marcos, João, Manhãs de Abril, pg.29



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terça-feira, fevereiro 03, 2004

VIAGEM OCULTA DE FÁTIMA MEIRELES

Esta viagem faz-se pela poesia, sob os «enigmas fluidos» ou o mistério das palavras, escutando o ímpeto interior, os sentimentos, as lembranças, as emoções, a vida no seu processo contraditório. Percorrem - se caminhos de outras dimensões «no inquieto cinza da madrugada» (1), no sonho e no encantamento. Buscam-se vivências da magia e do poético: «quero ser vento, /ser mar, /ser sol/ e estrela.» (2) Criam-se movimentos de consciência nos apelos à harmonia do homem com a natureza e à construção ininterrupta da «vida/ (…) vivida». (3) Desafiam-se mistérios e reinventa-se a própria existência numa linguagem que registra «um ritmo próprio num estilo natural e humano. O sentido da vida move-se por todas as coisas.» (4) E assim se cumprem os ciclos do poema na ida e na volta, do universo exterior para o universo interior porque «a poesia», diz a poeta, «é o meu lado de dentro numa viagem inacessível». (5) Esta vertigem do viver é a marca mais profunda da trajectória artística de Fátima Meireles. É mais uma voz que emerge nas margens do Lima com o seu grito e o seu silêncio a transportar as paixões no esplendor do seu timbre feminino.

Luís Dantas

Notas

(1) Fátima Meireles, Viagem Oculta, Edições Ceres, Ponte de Lima, 2003,pg.23
(2) Fátima Meireles, ob. cit., pg.26
(3) Fátima Meireles, ob. cit., pg.86
(4) Amândio Sousa Dantas, Os caminhos da Palavra, no prefácio, pg.10
(5) Fátima Meireles, ob. cit., pg.93