sábado, abril 16, 2011


MÁRIO DOMINGUES


A SUA OBRA - DA ESCRITA À TRADUÇÃO


(Texto extraído da obra inédita, Mário Domingues, por Luís Dantas)


Pala lá das peças jornalísticas que deixou em jornais ou revistas, como A Batalha, O Repórter X, Detective, Ilustração, O «Notícias» Ilustrado», O Século, Primeiro de Janeiro, Renovação, ABC, Pátria, Civilização, Vida Mundial, Sol, Notícias de Lourenço Marques, La Libertad (Madrid), Mário Domingues traduziu para editoras portuguesas obras de Walter Scott (1731-1832), William W. Collins (1721-1759), Charles Dickens (1812-1870) e foi autor de biografias de Fernão Mendes Pinto, Bocage, Fernão de Magalhães, Luís de Camões, D. João VI, Cardeal D. Henrique, D. João III, D. Sebastião, Padre António Vieira, Marquês de Pombal, Inês de Castro, D. João V, D. Dinis e Santa Isabel, D. Manuel I, D. Pedro, D. Afonso Henriques, D. Maria, Nuno Álvares Pereira, D. João IV, romances, novelas, obras dramáticas, livros policiais ou de aventuras assinados com pseudónimos inspirados em nomes ingleses ou franceses (William Brown, Henry Dalton, Philip Gray).

Os heróis das suas obras são estadistas, guerreiros, monges, poetas, navegadores, mulheres santas, oradores sagrados, profetas, libertadores, cavaleiros andantes, vagabundos, fraldisqueiros, intrujões, e vêm de todos os tempos e de todos os lugares. Vivem na luz ou na sombra das suas páginas, o triunfo e o fracasso, a bênção e a praga, a sorte e a desventura, o castigo e a recompensa, a inocência e a mácula, o choro e a galhofa, o amor e o desprezo.

Mário Domingues contribuiu, ao longo da sua vida, para a inovação e o esplendor da literatura portuguesa. Em 1960, publicou O Menino entre gigantes – a evocação da vida atribulada de um rapazinho mulato, quase negro, na sociedade lisboeta do início do século XX. Afastado da mãe africana, foi acolhido com afecto no seio da família paterna, mas não se livrou de preconceitos raciais, de vexames e de tormentos que abalaram o seu espírito. «É certo que só a escola lhe revela os meandros sinistros do preconceito racial, e José Cândido, felizmente robusto, poderá, à força de punhos, castigar aqueles que mais ostensivamente o ofendiam, mas nem por isso o choque deixa de existir. E não só através do colega que recusa a ficar sentado a seu lado, porque o pai lhe disse que todos os pretos cheiram a catinga, mas também por via da revelação da colega Florinda, que lhe entremostra as intenções pérfidas de Cândida, que pretendia arrancar-lhe uma declaração só para revelar o seu desprezo pelos homens de cor.

Por certo que o tom coloquial deste romance – ou antes, desta longa narrativa memorial – lhe fornece foros de coisa vivida, que a memória amontoou e que a escrita agora permite transformar em matéria de meditação. O pequeno José Cândido penetra assim dentro do labirinto estreito, rígido, de uma pequena-burguesia (e também muitas vezes de uma média-burguesia), que se debate nos últimos anos da monarquia em busca de uma tranquilidade, sem todavia o conseguir e sem que a proclamação da República altere substancialmente o teor de vida existente. O quadro dos valores sociais é muito rígido, mantém-se inofensivo a quaisquer modificações e, por isso, o trânsito de um ponto para outro efectua-se obedecendo a valores há muito estruturados e que não é permitido corroer decisivamente. José Cândido é-nos apresentado como uma das peças mais ínfimas dessa engrenagem complexa, absurda nos seus próprios fins, já que, em todas as páginas, José Cândido se nos revela um ente passivo, completamente esmagado pela imponência das figuras que lhe modelam e orientam a vida. É bem patente a simbologia do título, que não pretende significar outra coisa que não seja denunciar a situação peculiar do mulatinho detido pelas molas ocultas de um maquinismo cuja eficiência ignora e que, nesta primeira parte do memorial, ainda não conhece com perfeição. É por isso que, em grande parte do texto, pressentimos que tudo se prepara para um desenlace frutuoso com Belmira, cujos beijos estalados, violentos como explosões de granadas, se juntavam ao encanto expressivo dos olhos garços, dos cabelos ruivos, das faces plenas de sardas. O amor obsessivo que a rapariga ainda impúbere – ou quase – começa a alimentar pelo seu Zézinho, há-de encontrar o seu ponto extremo de tensão, na revelação que a sua carne adulta lhe dá uma virilidade praticamente insuspeitada até então. Por intermédio de outrem, revela-se a finitude do corpo, a sua dimensão exacta, aquela com a qual há-de vir a contar o jovem José Cândido. Este elemento iniciático – ou pelo menos assim apresentado – é o termo natural de uma primeira parte em que a infância se reconstrói com o aproveitamento sistemático das mil e uma maravilhas que a memória armazena e que se desfiam cronologicamente. Escrevo esta palavra cronologicamente, com a certeza de ter batido num dos elementos característicos da arte romanesca de Mário Domingues. E não só dele, também da grande maioria dos romancistas portugueses, que ainda se não deram conta de que a memória funciona descontinuamente. Se M. Domingues se tivesse furtado a este lento exercício de descobrir, na memória, os pontos em que as datas se conjugam eficientemente com os acontecimentos, não teríamos, por certo, um romance tão ordenado, mas uma massa de elementos que, mais amplamente nos tornaria possível a visão complexa de um mundo também complexo. O novelo da memória está muitas vezes enrolado com a ponta para dentro – perdoe-se este recurso a uma imagem de Fernando Pessoa – e por isso algo se perde neste desbobinar cronologicamente exacto. Na verdade, podemos perguntar, quais as relacionações que podemos estabelecer entre estes factos, os factos de uma infância cuidadosamente isolada das suas ligações com uma vida posterior, e tudo o que veio a acontecer na marcha do tempo? E como podemos entrever o perfil exacto da duração do autor Mário Domingues, se a sua personagem central não perde, em nenhum momento, a lenta meditação dos valores estruturados dentro de uma concepção antes estática do tempo?

Não posso deixar de reconhecer que não é apenas em Mário Domingos que surpreendemos uma tal ausência de compreensão deste fenómeno, embora, como é evidente, haja dentro deste texto denso, uma intenção que nos pode revelar a necessidade de uma construção tão fielmente datada. É que a primeira intenção de Mário Domingues é descobrir a maneira como a sua mesma duração se foi definindo, ou seja, a maneira como foi conquistando as suas linhas de força. E em verdade podemos compreender que o tempo se estabelece dentro de um quadro deveras limitado. Vejamos: o primeiro choque é aquele em que a criança se descobre em casa dos padrinhos, suja, comendo numa gamela, com as mãos; imediatamente a seguir, a avó, essa extraordinária D. Romana, que se recusava a aceitar quaisquer preconceitos raciais – em que o seu grupo social abundava – o transfere para os carinhos múltiplos de várias mulheres e de um avô um tanto romântico, ou inteiramente romântico; o choque seguinte é a descoberta de um mundo novo, a descoberta da própria natureza, que a Porcalhota virá entremostrar. A esta descoberta devemos juntar vários liames importantes: um é, na verdade, a descoberta da própria natureza, com os seus muitos fenómenos que o rapazinho educado num andar lisboeta, estava longe de poder adivinhar; a segunda é a descoberta das diferenças essenciais existentes entre o sexo masculino e o sexo feminino. Estas duas surpresas agem em sentido paralelo, a criança descobre os valores mais fundamentais da natureza, embora ainda não seja capaz de os conjugar com a totalidade de uma posição do homem dentro de um universo deveras complexo. É evidente que só o tempo, no seu próprio fluir ininterrupto (aceito aqui a explicação de tempo que pertence a M. Domingues, pois só deste modo nos podemos integrar no seu fluxo romanesco) irá descobrindo as molas mais fundamentais do existente, do real mais imediato (todas as funções da mediatidade se referem a um tempo – passado, a um não real que em alguns momentos nos parece ser entrevisto dentro de uma forma dinâmica que, apesar de atemporal, nos revela a estrutura da sua realidade). A experiência acumula-se, muitas vezes parece não ter sentido, o mediato instala-se então dentro da própria fragrância do imediato e o romancista irá descobrindo, pouco a pouco, que os elementos aparentemente desconexos contribuam para a decisiva formação do perfil do autêntico. Isto pode, talvez, resumir-se numa fórmula, em que não deixará de haver a inexorável secura – e traição das fórmulas –: nada pode ser desprezado quando é a maneira como se pretende descrever a formação de uma personalidade, que está em causa, por mais insignificante que esta seja, e por mais íntimo que seja o pormenor.

Não deixa de ser um tanto revelador dos preconceitos que predominam na área social onde se revelava o mulatinho, o espanto que alguns professores – e não só eles – revelam perante a capacidade intelectual do jovem aluno. O professor de alemão, um «herr» qualquer coisa, confessa a sua surpresa perante o valor intelectual do jovem mestiço, que supera todos os colegas de turma, brancos e, além disso, mais velhos. Preconceito que, ainda hoje, podemos entrever em frases como «os negros são crianças grandes». A manutenção secular do preconceito entende-se pela necessidade de explicação da vontade de domínio que particulariza certos sectores das populações arianas e que as forças a encontrar. Para a sua tutela, uma explicação convincente, ou, então, uma explicação que apresente o máximo de possibilidade de verosimilhança, para poder responder pela manutenção de um estado de coisas que não só deprime como ajuda a perturbar o retrato da pessoa humana. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, onde, depois de o negro ter revelado que não é, de modo algum, a criança que pretendem determinados teóricos racistas, na esteira de velhas doutrinas colonialistas (que, aliás, vieram encontrar na Europa nazi uma virtualidade prática que matou alguns milhões de judeus), se optou por outra fórmula de comportamento: o negro deve manter-se no seu lugar, para poder ser respeitado. E o manter-se no seu lugar, significa, dentro da expressão mais directa que podemos encontrar para o definir, manter a distância a que o respeito pela intangibilidade do branco, o deve manter. O problema, com algumas variantes para pior, alargar-se também às doutrinas do «apartheid» sul africano.

Regressemos, porém e mais directamente, ao âmbito do livro de Mário Domingues. O menino entre gigantes não se deixa esmagar, embora mantenha o olhar melancólico e magoado que há-de revelar sempre, em todas as circunstâncias da sua vida, o choque com uma realidade trágica. E, quando um companheiro do pai lhe revela as vicissitudes passadas pela mãe, o mundo revela-lhe outra faceta, não menos cruel. O pai perdeu a luta perla libertação da mãe, que continua a trabalhar como serviçal numa roça da Ilha do Príncipe (os elementos fornecidos por Mário Domingues, permitem identificá-lo como a Roça Infante D. Henrique). Não lhe foi possível arrancá-la às engrenagens de uma máquina cruel, destinada a esmagar a pessoa humana, serviçal que foi sua companheira e é a mãe do filho. Inventam uma doença, médicos e companheiros brancos, para o afastar da luta travada para poder levar a negra angolana para Lisboa, para junto do filho. E a revelação súbita e violenta desta mãe viva, é um golpe que mostra ao jovem José Cândido, o quanto é postiça a orfandade que lhe inventaram, para o afastar, radicalmente, do mundo negro que também é o seu (e, aliás, um outro preconceito resvala insensivelmente nas conversas da avó Romana: o mulatinho é inteligente, apenas porque a mãe é filha de gente grande lá da terra dela). Ei-lo, finalmente. Perante um outro valor que só indirectamente lhe pertence, já que, em boa verdade, a mãe está irremediavelmente cortada da sua vida. O jovem mulato é o órfão para todo o sempre e essa orfandade é tanto mais viva quanto mais involuntária e irremediável. O mundo já pouco mais tem a revelar-lhe e, por isso, compreendemos que o encontro com a realidade do corpo, revelado pela intervenção de outrem (neste caso a ruiva Belmira), seja o obstáculo que lhe falta transpor para entrar no âmbito do seu próprio tempo. É o que faz. E agora devemos aguardar a sequência, pois que, sem dúvida alguma o romance de Mário Domingues é um documento indispensável para poder julgar os últimos anos do século passado e os deste século. Ao mesmo tempo que se revela também documento indispensável para estudar a posição do homem de cor na sociedade lisboeta da sua época.» (1)







OS ÚLTIMOS DIAS


Quando o conheci, por um mero acaso na redacção do jornal O Século, não me apercebi se o velho jornalista tinha desatinado. Pareceu-me que andava por ali com olhar errante e coração fraquejado, cumprimentando um ou outro colega com vénias para voltar a sair num choro silencioso. Depois, agarrado ao bordão, retirava-se para as bandas da Ribeira Nova, a S. Paulo. Talvez fosse beber um bagaço e acender recordações de tempos resplandecentes… E morreu assim, com essa mania, quase esquecido, em 1977.

Nessa época, mais década, menos década, no restaurante O Cantinho da Amizade, as suas memórias luziam na roda de amigos e admiradores: o Abílio, director de farmácia, Luís Figueiredo, médico especializado em oftalmologia, Gaspar Malheiro, fidalgo boémio de Ponte de Lima, Abel, dono de uma tasquinha na freguesia da Graça, os Falcatos, o Manuel, professor de desenho, o João, que foi médico sem fronteiras, e o António Domingues, filho do Mário, pintor surrealista e ilustrador de várias obras do pai.


Notas

(1) Alfredo Margarido, A Experiência de um mulato muito escuro, quase preto, em Lisboa, «Cabo Verde», Boletim de Propaganda e Informação n.º 143, Praia, 1 de Agosto de 1961, pp. 16-19


quinta-feira, abril 07, 2011


A. GONÇALVES DIAS: O POETA DO MARANHÃO



Não se pode dizer que foram alegres os primeiros anos de Coimbra do António Gonçalves Dias. Por algum tempo, viveu isolado, acanhado no seu quartinho de estudante.

As despedidas da sua terra, «bela como a virgem das florestas», dos afagos da família, dos «amigos do Maranhão», doeram no seu peito débil. «Triste foi a minha vida de Coimbra», diz ele em carta a um velho companheiro, «que é triste viver fora da pátria, subir degraus alheios e por esmola sentar-se à mesa estranha. Essa mesa era de bons e fiéis amigos: O pão era alheio, era o pão da piedade, era a sorte do mendigo. Mas ser desconhecido, ou mal conhecido, e viver de tormentos como aqui é mais triste ainda!» (24) Depois, sim; vieram os dias de incontestável suavidade, de profunda camaradagem, de folias e gargalhadas naquela roda de amigos – o João Duarte Lisboa Serra, Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, Joaquim Ferreira Lapa, José Hermenegildo Xavier de Morais, António Ferreira de Araújo Jacobina, António Rego, Francisco Leonardo Mendes, Couto Monteiro, António Joaquim Ribeiro Gomes de Abreu, Manuel Bento da Rocha Peixoto, Luís de Bessa Correia, João de Lemos, Lima Poeta, Evaristo Basto, Álvaro Abreu. Os passeios. As festas. Os bailes. Os namoricos. Os versos recitados em misteriosos êxtases, ah! esses versos, como O Meu S. João:


«Já da rainha das noites,

Noite dia a tantas almas,

Já sinto estalar as bombas,

Sinto a grita, sinto as palmas.


Rompe as nuvens o foguete

E lá nos céus estrugiu,

Brilhou, morreu, e ligeiro,

Volta, desce, além caiu.


Crepitam rubras fogueiras

Dança a donzela cantando,

Canta e dança o namorado

Na viola suspirando.


Aqui um rancho aparece

Co’as alcachofras na mão

Que vem saber na fogueira

Segredos do S. João.


Ali gemendo o pinheiro

Co’a labareda abraçada,

Vem a terra, e toda a turba

Solta uníssona risada.

E brilham roupas nevadas

Ao baço clarão da lua,

E tudo corre dos lares

Alegre de rua em rua.


Mais dum sonho descuidado

Agora o estrondo quebrou

Só de velhos, que entre as rugas

Rosa d’amor se murchou,


De velhos porque de gelo

Cobre a idade o coração,

De velhos a quem deslembra

A noite de S. João.


Tudo o mais anda velado,

Tudo de risos se esmalta,

Tudo alegre ao som dos vivas

Por sobre as fogueiras salta.


Retumbam por toda a parte

Os folguedos d’alegria,

Só eu contigo me abraço,

Mimosa melancolia.


Esta é a noite dos segredos

Noite de amor e ciúmes,

Quantos não nascem, não morrem

Hoje à volta destes lumes!

Este aqui a sorte espreita

Dentro da urna singela

Sai um nome… geme, e diz

Não é este o nome dela.


Aquele as estrelas conta,

E se a canta não mentiu

Cada estrela lhe promete

Outra estrela que ele viu.


Esta da fonte ou do rio

Guarda as águas salutares,

Onde num ovo se escrevem

Ou venturas ou pesares


Aquela tem seu destino.

Tudo fechado nas flores,

Há-de ler em cada folha

A história dos seus amores.


Qual na areia faz a cova

E lá se enterra o dinheiro

Que deve sair profeta

Depois do dia terceiro.


Qual no prado, qual na fonte,

Que tem moiras encantadas

Aguarda da santa noite

As donosas orvalhadas.

Todos sabem um segredo

Com que do íntimo seio

Vão arrancar nesta noite

Oculto segredo alheio.


Só eu não tenho uma sina,

Só eu não tenho um condão,

Só eu não tenho quem leia

Dentro do seu coração!


Oh! quem pudera nesta hora

Das profecias d’amor

Ouvir à bela das belas

A sina do trovador!


A fogueira de seus olhos

Já queimou minha alma inteira;

As outras fogueiras falam

Só não fala esta fogueira!


Reverdece o orvalho as flores

Hoje crestadas na chama,

Só meu pranto na flor d’alma

Tão baldado se derrama!


Nem esta noite de encantos

Me desencanta o futuro,

Cede amor hoje aos mais tristes,

Só não cede ao meu conjuro!


Té os moiros na moirama

Têm nesta noite um condão,

Só eu não tenho quem leia

Dentro do seu coração!


Retumbam por toda a parte

Os folguedos d’alegria,

Só eu contigo me abraço,

Mimosa melancolia.» (25)


Num destes festejos, que tinha sempre quadros de lirismo, candura, brejeirice, ronhas e romance, Gonçalves Dias – o namorado incorrigível – pôs-se a catrapiscar uma moça esbelta, de cabelos loiros em caracóis, chapelinho baixo, de palha, enfeitado com flores. Era da freguesia de Santo Varão, lugar da Formoselha, concelho de Montemor-o-Velho, vizinho de Coimbra. Correu atrás dela, enviou-lhe versos por uma alcoviteira, mas não teve outra resposta, senão esta: a fidalga manda dizer que o senhor é um grande trobador, mas não gosta de homens pequenos. Invocava se este caso nos convívios à lareira da casa de S. Gens, do Álvaro de Abreu, em Refojos de Basto, lá para as bandas do Minho. E ele constituía, sem dúvida, um golpe rude na sua auto-estima, que já por si pouco tinha de robustez. «Era Gonçalves Dias (…) como Horácio e como Dante, de baixa estatura, que não excedia 1m,50; mas bem proporcionado e musculoso: tinha mãos e pés mui pequenos, agilidade nos movimentos, passo curto e apressado e grande disposição para caminhar a pé. Sua cabeça bem desenvolvida para os lados das fontes era realçada por uma fronte elevada e ampla, profundamente vincada em toda a sua extensão pelo longo meditar e pelas acerbas agruras da sorte contrária que incessantes o magoavam. Seus olhos pequenos, pardos, serenos, mui vivos e expressivos, espelhavam a franqueza de seu carácter e acentuavam aquele móvel e simpático rosto. Boca e nariz regulares, sendo as asas deste um pouco arregaçadas; tez morena, barbas e cabelos raros, castanhos, macios, anelados nas extremidades, sem contudo denunciarem, quer eles ou as maçãs, por mui salientes, sua origem mestiça.» (26)

O poeta continuou a viver entre a luz viva e baça, no fogo de duas necessidades violentas: escrever e amar. Quando se sentia infeliz dava um dos passeios habituais, percorria uma ou duas léguas, e divertia-se com uma lavadeira tagarela ou com uma tricana sagaz, e a harmonia voltava ao seu espírito.

(Excerto da obra inédita de Luís Dantas, Gonçalves Dias: o Poeta do Maranhão)

domingo, março 06, 2011


PELO CORAÇÃO DAS COISAS

DE

FÁTIMA MEIRELES

Fátima Meireles ensaia novas possibilidades de compor, numa proposta de maior intensidade expressiva. Em poemas, como Cantos Breves da Vida e A Sophia, utiliza novos recursos formais para transmitir os seus sentimentos.

Os poemas valorizam o ritmo da linha vertical, a geometria, a técnica do metro curto e o vocábulo, que, por vezes, é fragmentado, mas apresentam-se também como objecto visual. Vem esta influência certamente dos movimentos de vanguarda, do cubismo, da arte concreta na sua fase mais avançada, da relação íntima da poeta com a pintura. «No tempo e não no espaço a palavra desdobra a sua complexa natureza significativa. A página na poesia neoconcreta é a espacialização do tempo verbal: é pausa, silêncio, tempo. Não se trata, evidentemente, de voltar ao conceito de tempo da poesia discursiva porque enquanto nesta a linguagem flui em sucessão, na poesia neoconcreta a linguagem se abre em duração. Consequentemente, ao contrário do concretismo racionalista, que toma a palavra como objecto e a transforma em mero sinal óptico, a poesia neoconcreta devolve-a à sua condição de «verbo«, isto é, de modo humano de presentação do real. Na poesia neoconcreta a linguagem não escorre: dura.» (1) Mas no conjunto da sua obra, Pelo Coração das Coisas, o processo criador faz-se principalmente com a busca das palavras imprescindíveis, das palavras com pulsações próprias ( em rumores de «sangue» e de «fogo),


«que a prumo adormecem

pela comoção da luz verde e exacta

como chama que se ateia na súbita aparição do verso.»


E é com elas, na raiz da voz, que Fátima Meireles parte para uma nova caminhada poética como uma criança descalça. A sua poesia aborda a «infância», o «amor», a «vida», a «solidão», a «primavera», a «noite», a «paisagem» de «rios» e de «peixes», de «margens» e de «árvores», de «cordas» e de «barcos» - as coisas concretas e abstractas,o real e o irreal, mas é o tempo que se afirma, que se dilata e destaca no seu universo temático,


«o tempo e a dança

pelo outro tempo da memória.»


São os retratos que emergem das sombras, para remexer com a vida, com os sonhos, com as emoções, na claridade esplendorosa da poesia nostálgica, dos versos da dor ou da alegria, na evocação lírica dos «homens» que «esmagam as uvas no lagar», das mulheres que «bordam em toalhas de linho/ delicadas flores», das «crianças» que «adormecem dentro dos seus olhos», da «casa cheia de candeias – luz onde me abandono à saudade/ e o moinho onde a água caía como rosas.»


Um mundo de lembranças e de afectos, um tempo revivido:


«Era a idade em que ia passear contigo pelos campos

(eu corria à tua frente)

enquanto me falavas das árvores que plantavas e vias crescer

e das rosas cor de sangue que a mãe tinha no jardim

eu voava sobre a terra a ouvir-te ao cimo do êxtase


(a boina à feição do teu rosto enfeitado de rugas)

e os teus olhos submersos no próprio ar que respiravas

tu ardias de amor pelas coisas

ao princípio da noite vinhas sentar-se comigo a contar as estrelas.»


O que se perscruta e se sente nestes versos é o encanto de uma ternura luminosa e sublime, o som e o silêncio do fazer poético. Assim vibram outros textos, dedicados a gente da arte e da literattura, desde Cesariny, «poeta/ sol que arde e não se extingue/ e pelo enigma da vida olhas a pomba de cal», a Eugénio de Andrade: «Deixa-te estar assim/ junto à janela/ esquecido a olhar os cedros entre a chuva.» Ou a Picasso: «Há seios verdes no arco de um corpo/ sobre um espelho quebrado».

Fátima Meireles vai marcando a sua trajectória poética com diferentes ciclos e estilos, continua solidária com a solidão humana e não desiste de procurar a plenitude do ser através dos fragmentos mágicos do tempo, das zonas de ida e volta, claras ou obscuras, próximas ou afastadas.

NOTAS

(1) Amílcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanúdis, Manifesto neoconcreto ( publicado em 1915 no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil).


quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Olavo Bilac. Desenho de António Carneiro. Novembro de 1917.

OLAVO BILAC E OS PARNASIANOS

O ideário da poesia parnasiana é, em múltiplos aspectos, utópico. Não discuto a forma, a mestria do trabalho literário, a reinvenção do vocabulário, a restauração do soneto, a música ou as rimas singulares, mas questiono a realidade objectiva, a verdade absoluta, a criação do objecto sublime da arte pela arte. Aqui se encontram as contradições profundas dos poetas novos inspirados pelas musas da mitologia grega, e, perfilhados nesse movimento contra o romantismo na primeira colecção do Parnasse Contemporain (1866): Théophile Gautier (1811-1872); Théodore de Banville (1823-1891); José Maria de Hérédia; Leconte de Lisle (1818-1894); Louis Ménard (1822-1901); François Coppée; Auguste Vacquerie; Catulle Mendes (1841-1909); Charles Baudelaire (1821-1867); Léon Dierx (1838-1912); Sully Prudhomme; André Lemoyne; Louis-Xavier de Ricard (1843-1911); Antoni Deschamps; Paul Verlaine (1844-1896); Arséne Houssaye; Léon Valade; Stéphane Mallarmé; Henri Cazalis; Philoxéne Boyer; Emmanuel Des Essarts; Émile Deshamps; Albert Mérat; Henry Winter; Armand Renaud; Eugéne Lefébure; Edmond Lepelletier; Auguste de Chatillon; Jules Forni; Charles Coran; Eugéne Villemin; Robert Luzarche; Alexandre Piesagnel; Auguste Villiers de L’isle-Adam; F. Fertiault; Francis Tesson e Alexis Martin.

O modo de ver e de sentir, ao contrário do que a maior parte desses vates pensa, é sempre subjectivo. Porque, se colocamos em cena o artista – o operário das belas-artes -, o pôr-do-sol, por exemplo, traz para os versos uma relação bela, variada e infinita, do homem com o mundo exterior. Mas, para o pegureiro, que não seja dado a fantasias, configura-se apenas um sinal prático: hora de recolher com o rebanho à choupana. Por isso, os jogos das emoções não se escondem. João Penha tentou fazê-lo, e ainda se mascarou, mas foi em vão. E o mesmo aconteceu com Olavo Bilac, em poemas, como este, A Canção:


«Dá-me pétalas de rosa

Dessa boca pequenina:

Vem com teu riso, formosa!

Vem com teu beijo, divina!


Transforma num paraíso

O inferno do meu desejo...

Formosa, vem com teu riso!

Divina, vem com teu beijo!


Oh! tu, que tornas radiosa

Minh’alma, que a dor domina,

Só com teu riso, formosa,

Só com teu beijo, divina!


Tenho frio, e não diviso

Luz na treva em que me vejo:

Dá-me o clarão do teu riso!

Dá-me o fogo do teu beijo!»


No soneto, Via Láctea, o poeta lembra o processo criador dos pintores expressionistas, como Franz Marc, o Génio dos cavalos azuis, porque é a imaginação, o sentimento intenso e transbordante que prevalece:


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto …


E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um palio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.


Direis agora: "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"


E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas."


Ora, os parnasianos não fizeram uma ruptura radical com o romantismo, e para mostrar isso aqui está outro soneto de Olavo Bilac, Um Beijo:


«Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca mal-ferida.

Beijo extremo, meu prémio e meu castigo,
baptismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....»


E, concluindo: os poetas parnasianos contribuíram, sem dúvida, para os movimentos revolucionários – esses, sim! - da escola futurista e construtivista.